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A Tarde - Especial Dia do Professor - 15/10/2004 pag. 8
Nelson Pretto
diretor da faculdade de educação da ufba
www.pretto.info
Antes que você, leitor, comece a ler este artigo, proponho que pense um
pouquinho sobre o professor, ou professora, que mais marcou sua vida...
Será que foi aquele eficiente em transmitir os conteúdos da disciplina
que ensinava? Será que aquele mais relaxado com as notas, que aprovava
todos? Ou aquele exigente, durão? Tenho lá minhas dúvidas se, para
muitos de vocês, veio à lembrança um desses professores ...
Ainda que a sociedade contemporânea, permeada pela famigerada lógica do
mercado, imprima os signos da eficiência, qualidade e pragmatismo
também no âmbito da educação, não acredito que o professor que deixou
marcas tenha sido aquele eficiente apenas em dar conta de sua
disciplina, de sua área de conhecimento, mas, sempre meio acomodado...
Qual nada! Tenho quase certeza que o professor que lhe deixou fortes
lembranças foi exatamente aquele que lhe instigou o tempo todo, lhe fez
rever velhos conceitos, e preconceitos, desestabilizou a tranqüilidade
das suas certezas, aquele que fez ruir perspectivas que apenas lhe
acomodavam em falsas seguranças, aquele que não lhe deu receitas, que
não lhe passou fórmulas prontas, mas lhe fez refletir, lhe deixou uma
enorme curiosidade de descobrir, de investigar, o conhecimento, a vida
e suas possibilidades tão plurais.
E em tempos tão áridos, individualistas, competitivos, de gestos tão
pouco singelos, só posso imaginar um professor marcante, como o que
acabei de descrever, se estiver ele imbuído de afeto e compromisso, os
dois lados de uma mesma moeda (ooopppsss!). Afeto, sim, porque não há
compromisso quando não se gosta de gente, quando não se é sensível à
imensa fome de novo que demonstra essa galera jovem que está na escola
— nas nossas escolas tão anacrônicas! Também fundamental é o
compromisso. O compromisso com o rompimento dessa lógica mercadológica
na educação. Exatamente porque os tempos atuais sopram no sentido dessa
lógica, todo cuidado é pouco, meu caro, para não cairmos na velha
tentação do professor disciplinadinho e de uma escola arrumadinha, que
se limitem a cumprir o papel de distribuidores de informações e nada
mais do que isso!
Muito cuidado com as soluções simplistas, que preferem o ambiente
estéril da acomodação, da homogeneização, do rolo compressor que sufoca
as diferenças e especificidades étnicas e culturais. É a comida
industrializada, sem gosto de nada e igual em qualquer lugar... São os
pontos de ônibus padronizados, que deixam Salvador com a mesma cara de
Zurique ou Buenos Aires. Tanto faz. É a moda, com suas roupas
idênticas, de Norte a Sul, Leste a Oeste. Tudo conspira para subtrair a
força das culturas locais, esvaziando o nosso jeito especial de ser. E
tudo isso permeia também a educação, a partir de uma alucinada visão de
que, também ela, pode ser pensada como uma indústria, onde cada um é
uma peça de uma engrenagem que busca produtividade e eficiência.
Nesse quadro não muito animador, ou recuperamos a dimensão artesã do
trabalho docente, ou corrermos o risco de continuar formando cidadãos
acomodados, pouco críticos, insensíveis à fome de comida e de idéias do
nosso povo, solenemente silenciosos diante das mazelas de uma sociedade
tão desigual, que produz fatos tão cruéis como os recentes assassinatos
de moradores de rua. Continuaremos a formar jovens que amanhã podem vir
a ser um desses tantos políticos que prometem o que sabem não poder
cumprir, e eleitores que, por alguns reais, levantam a bandeira de
qualquer candidato.
Por tudo isso — não tenho dúvida — o professor que seguirá tocando
fundo os nossos meninos certamente será aquele que acredita na mudança,
no poder das gentes, no amor, na solidariedade e que, por ser tão
crédulo e cheio de esperança, provoca e instiga, o tempo todo, com
competência, afeto e muita rebeldia!
Este é o mês do professor. A Faculdade de Educação da Ufba, celebra o
professor todos os dias de todos os anos, porque, aqui, o que queremos
mesmo é formar professores-cidadãos, cheios dessa rebeldia criativa que
respeita o outro com todas as suas diferenças, que considera cada um
individualmente e cada um coletivamente como construtor de uma nação
justa e solidária. Por fim, lembro a todos: esse grandioso projeto só é
possível, de forma plena, numa universidade pública, gratuita, laica e
de qualidade.
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