Friedrich Wilhelm NIETZSCHE


Que tenho eu a ver com suas refutações? Minhas teses têm por objeto substituir o improvável pelo mais provável, e ocasionalmente um erro por outro”. (NIETZSCHE. 2005. p. 10. Afor 4. § 1. Genealogia da moral). [*]


NIETZSCHE, F. W. Genealogia da moral: uma polêmica. São Paulo: Cia das Letras. 2005. 179 p.

Dissertação I: “Bom e mau”, “bom e ruim”

Somente no âmbito nessa forma essencialmente perigosa de existência humana, a sacerdotal, é que o homem se tornou um animal interessante, apenas então a alma humana ganhou profundidade num sentido superior, e tornou-se – e estas são as duas formas fundamentais da superioridade até agora tida pelo homem sobre as outras bestas”. (NIETZSCHE. 2005. p. 25. Afor 6. § 1).

Os judeus, aquele povo de sacerdotes que soube desforrar-se de seus inimigos e conquistadores apenas através de uma radical tresvaloração dos valores deles, ou seja, por um ato da mais espiritual vingança. Assim convinha a um povo sacerdotal, o povo da mais entranhada sede de vingança sacerdotal. Foram os judeus que com apavorante coerência, ousaram inverter a equação de valores aristocrática (bom = nobre = poderoso = belo = feliz = caro aos deuses), e com unhas e dentes (os dentes do ódio mais fundo, o ódio impotente) se apegaram a esta inversão, a saber, ‘os miseráveis somente são os bons, apenas os pobres, impotentes, baixos são bons, os sofredores, necessitados, feios, doentes são os únicos beatos, os únicos abençoados, unicamente para eles há bem-aventurança – mas para vocês, nobres e poderosos, vocês serão por toda a eternidade os maus, os cruéis, os lascivos, os insaciáveis, os ímpios, serão também eternamente os desventurados, malditos e danados”. (NIETZSCHE. 2005. p. 25-26. Afor 7. § 1).

Enquanto toda moral nobre nasce de um triunfante Sim a si mesma, já de inicio a moral escrava diz Não a um ‘fora’, um ‘outro’, um ‘não-eu’ – e este Não é seu ato criador. Essa inversão do olhar que estabelece valores – este necessário dirigir-se para fora, em vez de voltar-se para si – é algo próprio do ressentimento: a moral escrava sempre requer, para nascer, um mundo oposto e exterior, para poder agir em absoluto – sua ação é no fundo reação”. (NIETZSCHE. 2005. p. 29. Afor 10. § 1).

“Não conseguir levar a sério por muito tempo seus inimigos, suas desventuras, seus malfeitos inclusive – eis um indício da natureza fortes e plenas, em que há um excesso de força plástica, modeladora, regeneradora, propiciadora do esquecimento”. (NIETZSCHE. 2005. p31. Afor 10. § 1).

Exigir da força que não se expresse como força, que não seja um querer-dominar, um querer-vencer, um querer-subjugar, uma sede de inimigos, resistências e triunfos, é tão absurdo quanto exigir da fraqueza que se expresse como força”. (NIETZSCHE. 2005. p. 36. Afor 13. § 1).

O sujeito (ou, falando de modo mais popular, alma) foi até o momento o mais sólido artigo de fé sobre a terra, talvez por haver possibilitado à grande maioria dos mortais, aos fracos e oprimidos de toda espécie, enganar a si mesmos com a sublime falácia de interpretar a fraqueza como liberdade, e o seu ser-assim como mérito”. (NIETZSCHE. 2005. p. 37. Afor 13. § 1).

Dissertação II: “Culpa”, “má consciência” e coisas afins

Não poderia haver felicidade, jovialidade, esperança, orgulho, presente, sem o esquecimento”. (NIETZSCHE. 2005. p. 47-48. Afor 1).

Com ajuda da moralidade do costume e da camisa-de-força social, o homem foi realmente tornado confiável”. (NIETZSCHE. 2005. p. 49. Afor 2).

O homem ‘livre’, o possuidor de uma duradoura e inquebrantável vontade, tem nesta posse a sua medida de valor, olhando para os outros a partir de si, ele honra ou despreza”. (NIETZSCHE. 2005. p. 49. Afor 2).

Mnemotécnica – ‘grava-se algo a fogo, para que fique na memória: apenas o que não cessa de causar dor fica na memória’”. (NIETZSCHE. 2005. p. 50. Afor 3).

Quanto sangue e quanto horror há no fundo de todas as ‘coisas boas’”. (NIETZSCHE. 2005. p. 51. Afor 3).

Falar de justo e injusto em si carece de qualquer sentido; em si, ofender, violentar, explorar, destruir não pode naturalmente ser algo ‘injusto’, na medida em que essencialmente, isto é, em suas funções básicas, a vida atua ofendendo, violentando, explorando, destruindo, não podendo sequer ser concebida sem esse caráter. (...) Os estados de direito não podem senão ser estados de exceção, enquanto restrições parciais da vontade de vida que visa o poder”. (NIETZSCHE. 2005. p. 64-65. Afor 11).

O que em geral se consegue com o castigo, em homens e animais, é o acréscimo do medo, a intensificação, o controle dos desejos: assim o castigo doma o homem, mas não o torna ‘melhor’ – com maior razão se afirmaria o contrário. (‘O prejuízo torna prudente’, diz o povo: tornando prudente, torna também ruim. Mas felizmente torna muitas vezes tolo.)”. (NIETZSCHE. 2005. p. 72. Afor 15).

Todos os instintos que não se descarregam para fora voltam-se para dentro – isto é o que chamo de interiorização do homem é assim que no homem cresce o que depois se denomina sua ‘alma’” (...) “Esta é a origem da má-consciência”. (NIETZSCHE. 2005. p. 73. Afor 16).

Para se erigir um santuário, é preciso antes destruir um santuário: está e a lei – mostrem-me um caso em que ela não foi cumprida”. (NIETZSCHE. 2005. p. 83. Afor 24).

Dissertação III: o que significa ideais ascéticos?

Um artista inteiro e consumado está sempre divorciado do ‘real’, do efetivo, por outro lado, compreende-se que ele às vezes possa cansar-se desesperadamente dessa eterna ‘irrealidade’ e falsidade de sua existência mais intima – e faça então a tentativa de irromper no que lhe é mais proibido, no real, a tentativa de ser real”. (NIETZSCHE. 2005. p. 91. Afor 4).

“‘Que significa um filósofo render homenagem ao ideal ascético?’, eis aqui ao menos uma primeira indicação: ele quer livrar-se de uma tortura”. (NIETZSCHE. 2005. p. 95. Afor 6).

Todas as coisas boas foram um dia coisas ruins, cada pecado original tornou-se uma virtude original”. (NIETZSCHE. 2005. p. 103. Afor 9).

Um meio ainda mais apreciado na luta contra a depressão é a prescrição de uma pequena alegria que seja de fácil obtenção e possa ser tornada regra: esta medicação é freqüentemente usada em associação com a anterior. A forma mais freqüente em que a alegria é assim prescrita como meio de cura é a alegria de causar alegria (ao fazer benefício, presentear, aliviar, ajudar, convencer, consolar, louvar, distinguir); no fundo, ao prescrever ‘amor ao próximo’, o sacerdote ascético prescreve uma estimulação, embora em dosagem prudente, do impulso mais forte e mais afirmador da vida – da vontade de poder”. (NIETZSCHE. 2005. p. 124. Afor 18).

O ‘pecado’ – pois assim se chama a interpretação sacerdotal da ‘má consciência’ animal (da crueldade voltada para trás) – foi até agora o maior acontecimento na história da alma enferma: nele temos o mais perigoso e fatal artifício da interpretação religiosa. (...) O homem termina por aconselhar-se com alguém que conhece também as coisas ocultas – e vejam! Ele recebe uma indicação, recebe do seu mago, o sacerdote ascético, a primeira indicação sobre a ‘causa’ do seu sofrer: ele deve busca-la em si mesmo, em uma culpa, um pecado de passado, ele deve entender seu sofrimento mesmo como uma punição”. (NIETZSCHE. 2005. p. 129-130. Afor 20).

Porque o ideal ascético foi até agora senhor de toda filosofia, porque a verdade foi entronizada como Ser, como Deus, como instância suprema, porque a verdade não podia em absoluto ser um problema”. (NIETZSCHE. 2005. p. 140. Afor 24).

A vassalagem de um artista ao ideal ascético é, portanto, a mais clara corrupção do artista que pode haver, e infelizmente das mais corriqueiras: pois nada é mais corruptível do que um artista”. (NIETZSCHE. 2005. p. 141. Afor 25).

Todas as grandes coisas perecem por obra de si mesmas, por um ato de auto-supressão; assim que a lei da vida, a lei da necessária ‘auto-superação’ que há na essência da vida – é sempre o legislador mesmo que por fim ouve o chamado: patere legem, quam ipse tulisti [sofre a lei que tu mesmo propuseste]”. (NIETZSCHE. 2005. p. 148. Afor 27).

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Obras incompletas. In: Coleção os Pensadores. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural. 1978.

O que é a verdade, portanto? Um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que de forma enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que, após longo uso, parecem a um povo sólidas, canônicas e obrigatórias: as verdades são ilusões, das quais se esqueceu que o são, metáforas que se tornaram gastas e sem força sensível, moedas que perderam sua efígie e agora só entram em consideração como metal, não mais como moedas.” (NIETZSCHE. 1978. p. 48)

Convicção é a crença de estar, em algum ponto do conhecimento, na posse da verdade incondicionada. Essa crença pressupõe, portanto, que há verdades incondicionadas; do mesmo modo, que foram encontradas aqueles métodos perfeitos para chegar a elas; enfim, que todo aquele que tem convicções se serve desses métodos perfeitos. Todos esses três postulados demonstram desde logo que o homem das convicções não é o homem do pensamento científico; está, diante de nós, na idade da inocência teórica e é uma criança por adulto que seja quanto ao mais”. (NIETZSCHE. 1978. p. 117).

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Para além do bem e do mal: prelúdio a uma filosofia do futuro. São Paulo: Martin Claret. 2005. 228 p.

A maior parte do pensamento consciente deve também ser incluída nas atividades instintivas”. (NIETZSCHE. 2005. p. 35).

A piedade, a ‘vida em Deus’ consideradas neste sentido, apareceriam como a última e a mais diáfana criação do medo à verdade”. (NIETZSCHE. 2005. p. 83).

Enfim, aos homens vulgares, aos mais numerosos, aqueles que existem para servir, para serem úteis ao bem comum, e que só assim têm direito à existência, a religião proporciona um conformismo inestimável em face da sua situação e existência, uma múltipla paz do coração, um enobrecimento de sua obediência, além de uma felicidade e uma dor mais iguais às dos seus, e uma espécie de transfiguração e de embelezamento, uma espécie de justificação de toda a vida quotidiana, de toda a baixeza, de toda a pobreza quase animal da sua alma”. (NIETZSCHE. 2005. p. 85).

Talvez nada exista no cristianismo e no budismo tão digno de respeito quanto a arte de ensinar ao mais baixos a elevarem-se pela religiosidade a uma aparente ordem superior das coisas e a contentarem-se, dessa maneira, com a ordem real em que vivem muito duramente. Esta dureza é exatamente a que precisa!”. (NIETZSCHE. 2005. p. 85).

Efetivamente, não parece que uma vontade dominou a Europa durante dezoito séculos, a de se fazer do homem um sublime aborto?”. (NIETZSCHE. 2005. p. 87).

A objeção, o desvio, a desconfiança alegre, a vontade de brincar são sinais de saúde. Tudo o que é absoluto pertence à patologia”. (NIETZSCHE. 2005. p. 96).

Num homem que procura o conhecimento a piedade quase faz rir como as mãos delicadas num ciclope”. (NIETZSCHE. 2005. p. 98).

Que importa que nós, os mais cautelosos e mais reservados, não abandonemos por enquanto a velha convicção de que apenas a grandeza de pensamento dá grandeza a uma ação e a uma causa”. (NIETZSCHE. 2005. p. 162).

Em sociedade (...) eis que a própria vida é essencialmente apropriação, ofensa, sujeição daquilo que é estranho e mais fraco, opressão, dureza, imposição de formas próprias, incorporação e pelo menos, na melhor das hipóteses, exploração”. (...) A ‘exploração’ não faz parte de uma sociedade corrupta ou imperfeita e primitiva. Já que pertence a essência do que é vivo como função orgânica fundamental, é uma conseqüência da verdadeira vontade de poder, a qual é justamente a vontade da vida”. (NIETZSCHE. 2005. p. 185).

Na nossa era tão popular, quero dizer tão pobre, ‘educação’ e ‘cultura’ têm de ser essencialmente arte de iludir, quanto à origem, quanto à pobreza herdada no corpo e na alma. Um educador que nos dias de hoje pregasse o amor à verdade acima de tudo e exortasse constantemente os seus discípulos ‘Sede verdadeiros!, sede naturais! daí-vos a conhecer tal como sóis!’ – mesmo um burro virtuoso e ingênuo desse aprenderia, após algum tempo, pegar naquela ‘furca’ de Horácio, (*) para naturam expellere. Com que êxito? ‘ Plebe’ usque recurret.”. (NIETZSCHE. 2005. p. 194).

(*) Horácio, Epístolas, I, 10, 24: Naturam expelles furca, tamen usque recurret (mesmo que expulses a natureza com o esteio, ela voltará sempre).

Algumas vezes a própria loucura é a máscara de um saber fatal e demasiadamente seguro”. (NIETZSCHE. 2005. p. 199).

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. A gaia ciência. São Paulo: Martin Claret. 2004. 247 p.

A educação procede geralmente dessa forma: procura determinar no indivíduo, com uma série de estímulos e de vantagens, uma maneira de pensar e de agir que, tornada por fim hábito, instinto e paixão, dominará nele e sobre ele, contra seus interesses superiores, mas ‘em benefício de todos’”. (NIETZSCHE. 2004. p.51).

Do objetivo da ciência: Mas como? O objetivo supremo da ciência é dar ao homem a maior quantidade de prazer e a menor quantidade de desprazer possível? E como chegará ela a isso, se o prazer e o desprazer estão tão intimamente entrelaçados que aquele que desejar ao máximo um é forçado a ter ao máximo do outro (...)? Com a ciência pode-se deveras favorecer um e outro objetivo! Talvez seja ela mais conhecida dos nossos dias pela faculdade de privar o homem das alegrias e o tornar mais frio, mais ‘estatua’, mais estóico. Nada impede também que se descubra nela a grande causadora das dores; talvez, então, da mesma maneira, se encontre a sua força contrária, a sua prodigiosa faculdade de fazer brilhar à alegria dos humanos, novos universos de estrelas.” (NIETZSCHE. 2004. p. 44-45).

A educação tendo êxito, qualquer virtude (p52) individual se torna de utilidade publica e desvantagem privada, conforme o fim supremo do individuo – não consegue chegar a outra coisa que não seja um enfraquecimento do espírito e dos sentidos ou mesmo a um declínio precoce: considerando-se a esse respeito, uma após outras as virtudes de um ser obediente, casto, piedoso e justo”. (NIETZSCHE. 2004. p. 51-52).

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Vontade de potência. Rio de Janeiro: Ediouro. s/d. 330p.

Patológica é a desmedida generalização, a conclusão que não tende a nenhum sentido”. (NIETZSCHE. p. 87).

Estou cheio de desconfiança e de malícia do que chamam “ideal”: esse o meu pessimismo em ter reconhecido quanto os “sentimentos superiores” são uma fonte de infelicidade, quero dizer de amolecimento e depressão do homem

Enganamo-nos toda vez que, de um ideal, esperamos um “progresso”: o triunfo de um ideal foi sempre, até o presente, um movimento retrógrado.

Cristianismo, revolução, abolição da escravatura, direitos iguais, filantropia, amor à paz, justiça, verdade: todas essas grandes palavras só têm valor para, na luta, servir de bandeira; não como realidades, mas como chavões para designar outra coisa (e até para designar o contrário!)”. (NIETZSCHE. p. 125).

O homem não ousou atribuir a si mesmo todos os momentos surpreendentes e fortes de sua vida, imaginou que esses momentos eram ‘passivos’, que os ‘sofria’, e a eles estava ‘subjugado’... A religião é um produto da dúvida quanto à unidade do indivíduo, uma alteração da personalidade... A proporção que tudo quanto é grande e forte foi sendo considerado sobre-humano e estranho pelo homem, este foi se amesquinhando e separou as duas faces em duas esferas absolutamente diferentes, uma desprezível e fraca, outra forte e surpreendente, chamando à primeira ‘homem’, à segunda, ‘Deus’.

E portou-se assim quase sempre; no período da idiossincrasia moral, não considerou como ‘desejadas’, como ‘obra do indivíduo’, suas sublimes condições morais. O cristão também substitui sua pessoa em duas ficções, uma mesquinha e fraca, a que chama homem, outra sobrenatural, a que chama Deus (Salvador, Redentor)...

A religião amesquinhou o conceito ‘homem’; sua extrema conclusão é que tudo quanto é bom, grande, verdadeiro, permanece sobre-humano e só nos é dado pela graça...”. (NIETZSCHE. p 128).

Que é o altruísmo cristão senão o egoísmo coletivo dos fracos que descobre que, se todos velarem uns pelos outros, cada um será conservado por maior tempo?” (NIETZSCHE. S/d. p. 155).

Toda ação perfeita é precisamente inconsciente e não desejada; a consciência expressa estado pessoal imperfeito e ordinariamente doentio. A perfeição individual condicionada pela vontade sob a forma de consciência, de razão, com a dialética, é caricatura, espécie de contradição de si mesma... O grau de consciência torna a perfeição impossível... Uma das formas do charlatanismo”. (NIETZSCHE. S/d. p. 160).

Homem – “o virtuoso animal da mediocridade, o animal de rebanho, que ousa chamar-se homem”. (NIETZSCHE. S/d. p. 160).

A moral é a forma mais maligna da vontade de mentir, a verdadeira Circe da humanidade: é o que precisamente a tem corrompido”. (NIETZSCHE. S/d. p. 164).

A moral é o instinto da negação da vida. É preciso aniquilar a moral para libertar a vida”. (NIETZSCHE. S/d. p. 181).

A ironia da civilização européia consiste em que tem uma coisa por verdadeira e pratica outra. Que adianta, por exemplo, a arte da leitura e o senso crítico, se a interpretação eclesiástica da Bíblia, tanto a protestante como a católica, é mantida antes como depois? Não se avalia suficientemente a barbárie das idéias em que nós, os europeus, vivemos ainda hoje. Ainda permitido crer em nossos dias que a ‘salvação da alma’ depende de um livro!... E dizer-se que hoje ainda se acredita nisso!... Para que serve a educação científica, a crítica dos textos, a hermenêutica, se tal absurdo, como a explicação da Bíblia que mantêm a Igreja, não faz ainda corar de vergonha todos os rostos?” (NIETZSCHE. S/d. p. 153).

O egoísmo é a intensificação do eu, o altruísmo a intensificação do não-eu”. (NIETZSCHE. S/d. p. 175).

[183] “Atributos e desejos elogiados: – tranqüilo, eqüitativo, sóbrio, modesto, respeitoso, delicado, bravo, casto, honesto, fiel, crente, reto, confiante, resignado, compassivo, caritativo, consciencioso, simples, manso, justo, generoso, indulgente, obediente, desinteressado, sem inveja, bom, laborioso. – Distingamos: até que ponto tais qualidades são condicionadas, como meios para atingir a uma vontade e a um fim determinados (freqüentemente o ‘mau fim’); ou bem como conseqüências naturais de uma paixão dominante (por [página 184] exemplo a intelectualidade); ou como expressão de uma necessidade, quero dizer, como condições de existência (por exemplo: cidadão, escravo, mulher, etc).” (NIETZSCHE. S/d. p. 183-184).

Crítica do homem bom – A honradez, a dignidade, o sentimento do dever, a justiça, a humanidade, a lealdade, a retidão, a boa consciência, – por estas palavras bem soantes, realmente afirmamos a aprovamos qualidades por si mesmas? Ou então qualidades e condições, indiferentes por seu valor, são somente consideradas sob um ângulo que lhes dá valor? Residirá nelas o valor dessas qualidades, ou na utilidade e benefícios que delas resultam (que parecem ou que nós esperamos que resultem)?” (NIETZSCHE. S/d. p. 195).

A coação subjetiva que nos faz crer na lógica explica simplesmente que, bem antes de havermos tido consciência da lógica não havíamos feito outra coisa senão introduzir seus postulados no que acontece: agora os encontramos no que acontece — não podemos mais proceder de outra forma — e nossa imaginação interpreta essa coação como uma garantia da “verdade”. Fomos nós quem criou a “coisa”, a “coisa igual”, o sujeito, o atributo, a ação, o objeto, substância, a forma, depois de estarmos muito tempo satisfeitos em representá-los iguais, grosseiros e simples. O mundo aparece-nos lógico porque fomos nós quem primeiramente o logicizou”. (NIETZSCHE. S/d. p. 225).

O conhecimento em si é impossível no devir; como é então possível o conhecimento? Como erro a respeito de si mesmo, como vontade de potência, como vontade de ilusão”. (NIETZSCHE. S/d. p. 232).

Vemos como a moral a) envenena qualquer concepção do mundo, b) detém a marcha para o conhecimento, para a ciência, c) dissolve e solapa todos os verdadeiros instintos (ensinando considerar as raízes como imorais)”. (NIETZSCHE. S/d. p. 234-235).

“— Emito a teoria que a vontade de potência é a forma primitiva das paixões, que todas as outras paixões são apenas configurações dessa vontade, que haveria aí maior clareza, em lugar da idéia de ‘felicidade’ individual (à que deve aspirar qualquer ser vivo), a idéia de potência: ‘aspirar à potência, a um acréscimo de potência’; o prazer é apenas um sintoma do sentimento de que a potência foi atingida, é a percepção de uma diferença — (— não se aspira ao prazer: este produz-se desde que se atinge ao que se aspirava: o prazer acompanha, ele não põe em movimento); que toda a força é vonta-de de potência, que não há outra força física, dinâmica ou psíquica... ”. (NIETZSCHE. S/d. p. 245).

Todo o reino do ‘verdadeiro’ e do ‘falso’ refere-se às relações entre os seres e não ao ‘em si’... Não há ‘seres em si’ (são relações o que constituem os seres...) como tampouco pode existir um “conhecimento em si”. “(NIETZSCHE. S/d. p. 246).

O instinto mais geral e mais profundo em toda ação, em toda vontade, permaneceu o mais desconhecido e o mais oculto, porque, na prática, obedecemos sempre à sua ordem, porque nós mesmos somos essa ordem”. “(NIETZSCHE. S/d. p. 251).

... O cristianismo é a hipocondria romântica daqueles que não se sentem bem sólidos em suas pernas”. “(NIETZSCHE. S/d. p. 251).

Que o mundo não quer atingir a um ‘estado durável, é a única coisa que está demonstrada. Portanto é mister imaginar que seu apogeu não é um estado de equilíbrio.... ”. (NIETZSCHE. S/d. p. 254).

[258] “O Estado ou a imoralidade organizada – no interior sob a forma de polícia, de direito penal, de castas, de comércio, de família; no exterior como vontade de potência, de guerra, de conquista, de vingança. Como se concebe que ele possa realizar aquilo que um indivíduo nunca empreenderia? Pela divisão das responsabilidades, do mando e da execução, pela introdução da virtude, [259] do dever, do amor à pátria e ao soberano. Pela manutenção da altivez, da severidade, da força, do ódio, da vingança, – em suma, de todos os traços típicos repugnantes ao ser de rebanho. (...) A manutenção do Estado militar é o derradeiro meio, de continuar e manter as grandes tradições com respeito ao tipo supremo de homem, o tipo forte. E todas as concepções que eternizam a inimizade e as distâncias sociais dos Estados podem nisso encontrar sua sanção (por exemplo, o nacionalismo, o protecionismo aduaneiro).” (NIETZSCHE. S/d. p. 258-259).

A educação é essencialmente o meio de arruinar a exceção em favor da regra. A cultura é essencialmente o meio de dirigir o gosto contra a exceção, em favor da mediania”. (NIETZSCHE. S/d. p. 322).

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Humano, demasiado humano. São Paulo: Escala. 2006. 303p.

228 – O CARÁTER FORTE, BOM

O meio educador pretende tornar todo homem dependente, colocando sempre diante de seus olhos o menor número de possibilidades. O individuo é tratado por educadores como se, na verdade, fosse algo novo, mas devesse tornar-se um replica. Se o homem aparece primeiramente como algo desconhecido, algo que nunca existiu, deve ser transformado em algo conhecido, algo já existente. Chama-se ‘bom-caráter’ numa criança a manifestação de sua subordinação progressiva; quando a criança se coloca do lado dos espíritos subordinados, manifesta em primeiro lugar o despertar de seu espírito comunitário; com base nesse sentido comunitário, mais tarde se tornará útil ao Estado ou à sua classe”. (NIETZSCHE. 2006. p. 167).

472 – RELIGIÃO E GOVERNO

A crença numa ordem divina das coisas políticas, num mistério na existência do Estado, é de ordem religiosa: se a religião desaparecer, o Estado perde inevitavelmente seu antigo véu de Ísis e não desperta mais respeito. Vista de perto, a soberania do povo servirá para levar a desvanecer até a magia e a supertição derradeira do domínio desses sentimentos: a democracia moderna é a forma histórica da decadência do Estado”. (NIETZSCHE. 2006. p. 258).

585 – PENSAMENTOS DE MAU HUMOR

A humanidade emprega sem contar todos os indivíduos como combustível para aquecer suas grandes máquinas: mas por que, pois, as máquinas, se todos os indivíduos (isto, a humanidade) só são úteis para mantê-las? Máquinas que são seu próprio fim, é essa l’humana commedia”? (NIETZSCHE. 2006. p. 281).


[*] PS – caro leitor é realmente um desafio considerarmos a possibilidade de termos por objeto substituir o improvável pelo mais provável, e ocasionalmente um erro por outro”... é toda a ciência... toda a educação... toda a pedagogia...


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nietzsche. é um dos maires filosofos. ele não só contribuiu para a filosofia, como também contribuiu em muito para  a psicologia.. ele aborda as questões da moral, ao meu ver de formar mais contudente do que kant, ou seja. em nietzsche. a moral é uma  máscara

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