Enfim, a máquina que todos esperávamos?!
Maria Helena Silveira Bonilla
Correio
da Bahia - Caderno informática, Salvador -
BA, 07 mar. 2001.
O Brasil vem, há muitos anos, procurando destacar-se como produtor de ciência e tecnologia. No entanto, apesar das políticas públicas que tentaram construir mecanismos para alavancar essa área no país, como por exemplo a política de reserva de mercado ou a subseqüente abertura do mercado de informática, continuamos dependentes de pesquisas e tecnologias produzidas lá fora. O Programa Sociedade da Informação no Brasil (SocInfo) é mais uma tentativa de transformar o país num centro de excelência em produção de tecnologia, com o intuito de diminuir o fosso que nos separa dos países desenvolvidos. O grande objetivo é que o país possa entrar no clube dos grandes em condições competitivas no mercado internacional. Para alcançar esse objetivo, uma das estratégias apontadas no Livro Verde, documento que apresenta à sociedade as linhas do Programa SocInfo [www.socinfo.org.br], é o desenvolvimento e instalação de infra-estrutura avançada de redes que possa oferecer as condições necessárias para o desenvolvimento de pesquisas e aplicações nas áreas científica e tecnológica.
No recente lançamento do Livro Verde na Bahia, todos os oradores destacaram a prioridade dessa meta para o país e os caminhos e investimentos que estão sendo operacionalizados para que isso aconteça. Destacaram ainda a necessidade de o país deixar de ser um mero parque consumidor dos países desenvolvidos, sendo necessário para isso que acreditemos mais em nossas potencialidades, em nossa capacidade produtora, que valorizemos as conquistas que fizemos até aqui. Fala-se muito por esses dias, no desenvolvimento da tecnologia necessária para a informatização do sistema bancário e das urnas eletrônicas como uma produção brasileira de grande importância, e sem similar nos países desenvolvidos. Na mesma linha, está sendo apresentado ao país um novo computador compacto, de baixo custo, realizado na UFMG a pedido e com verbas do Comitê Gestor da Internet. Esse computador utiliza o sistema Linux, um software aberto, que foi adaptado pelos pesquisadores para poder rodar nessa máquina, utilizando menos memória e menos espaço, de tal modo que o computador não possui o tradicional disco rígido de todos os computadores. Em seu lugar utiliza flash memory, com capacidade de 16MB. O objetivo do desenvolvimento desse sistema é que ele possa ser aplicado em larga escala, a baixo custo, cerca de R$400, ainda inacessível para grande parte da população brasileira.
O anúncio dessa nova máquina deixa-nos todos eufóricos. No entanto, pelo que estamos vendo, o sistema será utilizado como browser (navegador) ? um programa que possibilita apenas o acesso a informações ou a opções por determinados serviços que já estejam disponibilizados em rede. Fala-se que bastará plugar a máquina na tomada e ela entrará em funcionamento estampando no monitor o tal navegador, de forma que o usuário não terá nenhuma dificuldade para obter as informações que necessitar. Resta saber se a página inicial padrão será da empresa que fabricará a máquina, do governo ou do próprio browser! E mais, o sistema será fechado ou o usuário terá liberdade de configurar a máquina à sua maneira?
O programa SocInfo prevê a instalação de telecentros e essas máquinas possivelmente serão utilizadas para equipá-los. Teremos então telecentros no estilo cash, ou terminal bancário, ou no estilo daqueles utilizados nos projetos das cidades digitais de Portugal, onde as máquinas informam sobre o andamento da administração pública e dão acesso ao comércio eletrônico.
O fato de não estarmos utilizando um produto "made in outro país" já é uma conquista. O fato de estar sendo disponibilizado acesso também é uma conquista. No entanto, precisamos analisar esse processo com um pouco mais de cautela. Enquanto por um lado lutamos para que o Brasil saia do patamar de consumidor de ciência e tecnologia em relação aos demais países, por outro lado, sujeitamos os cidadãos brasileiros a serem apenas consumidores de informações, bens e serviços. Uma máquina que só oferece a oportunidade de acesso e não de produção, não permite que seus usuários transformem-se em produtores de conhecimento, de cultura, pois para que isso aconteça torna-se necessário a disponibilização de máquinas capazes de processamento e edição. Portanto, não é de espantar quando vamos ao dicionário procurar pelo significado do termo browse e lá encontramos, além de "folhear, ler páginas de livro", "ato de pastar". É nisso que estaremos transformando os brasileiros?! Em usuários que terão apenas a opção de deglutir, assimilar, consumir o que está posto e normalmente produzido pelas grandes corporações!
Mais preocupante ainda foi a primeira imagem que construí ao receber essa notícia. De imediato visualizei as escolas brasileiras lotadas com tais maquinetas, professores e alunos consumindo conhecimentos e informações produzidos lá fora, sujeitando-se ao papel de copistas de conhecimento alheio e impossibilitados de socializar os conhecimentos e a cultura gerados e gestados em seus próprios contextos. Ou seja, mais uma vez acontecerá o enquadramento da tecnologia na lógica vertical da transmissão, da massificação, que aniquila uma outra lógica que emerge e é potencializada pela rede, uma lógica horizontal rizomática, da troca, da interatividade, da multivocalidade. Como esperar que esses jovens alunos um dia transformem-se em cientistas, em pesquisadores, mantendo-se a polarização: alfabetização digital para população de baixa renda, os consumidores, e cursos especializados, alta tecnologia, para as classes sociais mais altas, os produtores? Ou melhor, como esperar que um país que não investe na educação de sua juventude consiga sair do patamar de consumidor de ciência e tecnologia?
Enquanto não desenvolvermos uma cultura de participação, de envolvimento da população, em sua amplitude, na esfera da produção, enquanto deixarmos essa tarefa apenas nas mãos dos poucos integrantes das classes favorecidas, mais preocupados em obter benefícios próprios do que na qualidade de vida da sociedade como um todo, vai ser bastante difícil sairmos do estágio em que nos encontramos hoje.