UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA

MESTRADO EM ENSINO, FILOSOFIA E HISTÓRIA DAS CIÊNCIAS

 

DISSERTAÇÃO DE MARIA BERNARDETE DE MELO CUNHA

 

PERFIL CONCEITUAL

TRABALHANDO A CONCEPÇÃO DE MATÉRIA E ESTADOS FÍSICOS DOS MATERIAIS COM ALUNOS E ALUNAS DO ENSINO MÉDIO

 

Parecerista: Profa. Dra. Maria Helena Silveira Bonilla

 

Parecer

 

Primeiramente quero pontuar algumas questões que considero como méritos do trabalho de Maria Bernardete:

  1. A pesquisa realizada é de fundamental relevância para a educação, uma vez que apresenta a possibilidade de uma abordagem alternativa ao ensino tradicional, neste caso ao ensino de Química, trazendo um referencial atualizado para fundamentar sua proposição.
  2. Essa abordagem alternativa implica a superação do modelo de mudança conceitual, tão profusamente empregado nas escolas. Utilizar o modelo de mudança conceitual implica em desconsiderar, abandonar e/ou fazer subsumir as idéias prévias dos alunos no processo de ensino. Implica também não considerar concepções conflitantes como simultaneamente plausíveis para uma pessoa. Em vista disso, o trabalho de Bernardete está em sintonia com as pesquisas recentes que questionam até onde mudanças conceituais radicais realmente ocorrem, que não consideram adequado descrever o processo de ensino como uma substituição das idéias prévias dos alunos por idéias científicas, que apontam que buscar suprimir as concepções alternativas significa suprimir o pensamento de senso comum e seu modo de expressão, a linguagem cotidiana, o que seria uma expectativa irreal e inútil. A linguagem cotidiana é o modo mais abrangente de se compartilhar significados e permite a comunicação entre os vários grupos dentro de uma mesma língua. Suprimi-la seria impedir a comunicação e o compartilhamento de significados. Maria Bernardete, em sua pesquisa e em sua ação, enquanto professora, apóia-se no modelo de perfil conceitual para mostrar que as idéias prévias dos alunos sobrevivem ao processo ensino-aprendizagem e que isso precisa ser compreendido e aceito como natural nas dinâmicas pedagógicas, como está explicitado à página 81.
  3. Ao questionar as lacunas que se encontram presentes na atual organização dos conteúdos de Química no ensino médio, Maria Bernardete mobiliza-se para encontrar uma outra possibilidade de trabalho, dizendo, à página 45, que assim transformou-se em pesquisadora de sua própria prática. Eu diria que ser pesquisadora da própria prática é uma atitude que me parece fazer parte do ser professora da Bernardete, indo além do escopo deste trabalho de pesquisa. Digo isso porque entendo que se sentir insatisfeita com o modelo de educação instituído, detectar possíveis problemas e propor soluções são próprias do professor pesquisador, esteja ele realizando um trabalho de pesquisa acadêmico ou não. Nesse sentido gostaria de parabenizá-la. No Brasil necessitamos de muitos professores pesquisadores.

Bem, é nessa perspectiva, e tendo essas questões como pano de fundo, que gostaria de interagir um pouco com Bernardete, a partir do trabalho que ela apresenta para ser analisado.

Ao questionar a organização tradicional dos conteúdos de Química no ensino médio, mais especificamente, ao detectar lacunas nos conhecimentos apresentados por alunos da 3ª série (p. 37), Bernardete elabora uma pesquisa e apresenta uma alternativa: uma outra organização de conteúdos para a 1ª série do ensino médio, por considerar que suprindo essa lacuna logo no início desse nível de ensino, ao chegar ao término esse problema estaria resolvido. Sem questionar a validade do teu trabalho, quero questionar esse desejo que temos, enquanto professores, de preencher lacunas. Será que é possível acabarmos com elas? Será que essa proposição vai ser suficiente para preencher possíveis lacunas que venham surgir mais tarde na formação desses alunos? Ou o caminho não seria sim, propor dinâmicas alternativas, outras organizações de conteúdos, mas também deixar explícito que isso não será suficiente para suprir as lacunas, que estas estarão sempre presentes e é necessário trabalharmos com elas à medida que surjam? São questões que abro para refletirmos.

 

Sobre o árduo trabalho que Bernardete teve ao construir o perfil conceitual sobre a concepção de matéria e estados físicos dos materiais dos alunos da turma que participou da pesquisa, gostaria de analisar alguns pontos.

  1. os alunos sabiam que estavam participando de uma pesquisa. Você fala do interesse e da motivação deles para realizarem as atividades, justamente porque estavam sendo “pesquisados” (p. 98). Numa pesquisa qualitativa, é necessário levarmos em consideração que a presença do pesquisador, mesmo sendo o professor da turma, é um fator que mexe com o cotidiano do grupo, que provoca uma reação por parte deles, que os deixa mais atentos ao que estão fazendo, procurando refletir sobre cada ação desencadeada.
  2. algumas atividades foram realizadas pelos alunos individualmente e outras em grupos. O movimento, a discussão, a análise do que estavam realizando desencadeou processos de construção de conhecimentos desde a proposição da primeira atividade da fase de pré-teste, haja vista que um dos objetivos era justamente buscar a participação ativa dos alunos na construção dos conceitos, considerando suas idéias prévias

Essas questões, sob o meu ponto de vista, apontam para a perspectiva de podermos sim construir um perfil conceitual, mas que é necessário considerarmos que o mesmo já vai ficando defasado à medida que vai sendo construído. Bernardete faz referência ao movimento de idéias à página 98, embora não esteja se referindo ao próprio processo de construção do perfil. Senti falta de alguma consideração sobre esses fatores no trabalho, inclusive chamando Mortimer para dialogar sobre isso: o que ele diz sobre esses fatores? Ou não faz referência a eles? E se não considera, não seria importante considerar?

 

Após a realização das seis primeiras atividades, Bernardete explicita à página 63 que realizou algumas aulas procurando chegar a modelos para os estados físicos dos materiais, tomando como base as atividades realizadas. Diz que recorreu à exposição de conteúdos e a alguns exemplos. Senti falta de uma análise mais detalhada desse processo, das articulações que foram realizadas com as atividades anteriores, haja vista que o movimento já havia sido desencadeado, que as discussões já estavam acontecendo, desde a realização da primeira atividade, como está dito à página 80.

 

À p. 69 Bernardete fala de uma possível resistência dos alunos para responder às questões propostas pelas atividades 8 e 9. Gostaria que Bernardete explicasse o que entende por resistência e se ela na considerou a possibilidade de os alunos não terem efetivamente compeendido a questão ou o conceito que estava sendo requerido como resposta?

 

Bernardete construiu o perfil conceitual da turma a partir das respostas que os alunos deram, por escrito, às questões propostas nas atividades realizadas. Às páginas 74, 86 e 95 aponta as dificuldades apresentadas pelos estudantes para expressarem-se por escrito. Considerando que o próprio modelo de perfil conceitual enfatiza a importância da linguagem cotidiana para a expressão e o compartilhamento de significados, considero que utilizar apenas questionários escritos foi um limitante do trabalho. Bernardete aponta as dificuldades que teve para utilizar outras formas de registro, mas considero que o uso de um gravador k7 simples teria sido muito importante para identificar elementos fundamentais para a pesquisa.

Esse centramento na linguagem escrita é própria da escola. Os referenciais da escola estão todos embasados na racionalidade própria da linguagem escrita. Mesmo quando utiliza outras linguagens, a escola as formata dentro das características da linguagem escrita. E mais, a escola preocupa-se muito mais com a forma da escrita do que com o sentido do que é escrito, com o uso da escrita para a comunicação. E aí é que encontramos um dos grandes paradoxos da escola atual. Apesar desse arraigamento à linguagem escrita, ou justamente por causa dele, acaba desencadeando nos alunos um bloqueio para expressar-se por escrito.

Nessa perspectiva, considero que, apesar de durante a realização das atividades os alunos terem utilizado a linguagem oral, Bernardete não conseguiu desprender-se da linguagem escrita para a coleta de dados para a pesquisa, o que levou à perda de uma gama riquíssima de dados que poderiam ter sido trazidos para a análise.

 

A noção de perfil conceitual é dependente do conteúdo, já que para cada conceito em particular, tem-se um perfil diferente, e isso Bernardete explicita bem em seu trabalho. Por outro lado, a noção de perfil conceitual é também dependente do contexto, da cultura, uma vez que é fortemente influenciada pelas experiências distintas de cada indivíduo. Não encontrei referência sobre a relação entre o perfil conceitual e a cultura, o contexto onde vivem e convivem os alunos da turma que participou da pesquisa. Gostaria de ouvir Bernardete a respeito dessa relação.

Uma outra característica da noção de perfil conceitual é a tomada de consciência, pelo estudante, de seu próprio perfil. Bernardete fala dessa conscientização em sua metodologia de trabalho, à p. 44, retomando isso à p. 94, como uma decorrência das atividades realizadas. Como não considero essa conscientização uma decorrência natural das atividades realizadas para o levantamento do perfil conceitual e não encontrei referências e análises específicas que explicitem o processo, gostaria que Bernardete relatasse como essa conscientização ocorreu (se ocorreu).

 

 

Para finalizar, gostaria de dizer que, sob o meu ponto de vista, o trabalho de Bernardete ficou muito preso às questões relativas ao conteúdo, deixando de trazer para análise uma gama diversificada de fatores sociais, políticos, culturais, que estão presentes nas relações de sala de aula e complexificam os processos. Ao longo do trabalho ela cita alguns desses fatores, mas não chega a problematizá-los, a estabelecer articulação entre eles e o processo de construção dos conceitos de Química.

Considerando que Bernardete é uma professora pesquisadora, em constante busca e reflexão, fica a sugestão para que nos próximos trabalhos de pesquisa procure explicitar e analisar um pouco mais profundamente a complexidade vivenciada na sala de aula.

 

Salvador, 17 de dezembro de 2003

 

Maria Helena Bonilla