UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA
FACULDADE DE
EDUCAÇÃO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO
Tese: EDUCAÇÃO ONLINE: cibercultura e pesquisa-formação na prática docente
Doutoranda: EDMÉA
OLIVEIRA DOS SANTOS
Orientadores:
Prof. Dr. Roberto Sidney Macedo
Parecerista: Profª Drª Maria Helena Silveira Bonilla
– FACED/UFBA
PARECER
Foi um prazer ter lido
a tese de Edméa. Como desde 1999 participamos do mesmo grupo de pesquisa aqui
na Faced, foi muito bom ver expresso no trabalho muitas de nossas reflexões conjuntas,
tanto as críticas aos modelos educacionais instituídos, centrados na lógica
comunicacional da transmissão, quanto as análises das potencialidades e
possibilidades abertas pelas TIC para a proposição de novas práticas
pedagógicas, análises essas que têm como base a própria prática de Edméa, a sua
ousadia de criar, experimentar, analisar, reconstruir. Edméa é uma pesquisadora
inquieta, insatisfeita com o instituído, articulada com seus pares para a
proposição do novo, sempre em busca de uma educação mais significativa. Essas
características de Edméa perpassam cada capítulo da tese. Ler o trabalho foi
como ouvi-la falar sobre o tema. Veio-me à lembrança várias conversas que
tivemos. Portanto, a tese de Edméa não é apenas um trabalho acadêmico, é também
a expressão de suas vivências.
Mais especificamente,
quero deter-me um pouco no título da tese: “Educação online”. Gosto do
título. Por quê? No contexto educacional brasileiro, hoje, temos bem demarcadas
duas modalidades de ensino – a presencial e a ead – postas como separadas, sem
qualquer tipo de articulação. No entanto, no contexto mundial têm emergido
outras designações para expressar a complexidade dos processos educativos e as
articulações entre processos presenciais e virtuais. Na Europa, por exemplo,
fala-se em e-learning e b-learning. No Brasil começa-se a usar
“educação online”, justamente como forma de expressar que o significado
construído historicamente para a “educação a distância” está fundamentado no
modelo de comunicação de massa, na transmissão de informações, o que Edméa
apresenta com propriedade em seu trabalho, e que esse significado tem limitado
o uso das potencialidades do ciberespaço, o que Edméa também apresenta muito
bem na tese.
Nesse sentido, o termo “educação online” me
agrada porque busca desconstruir e esvaziar de sentido a dicotomia EAD –
educação presencial ao mesmo tempo em que incorpora, explicita e fortalece as
potencialidades comunicacionais interativas do ciberespaço. E por que é
importante fortalecer e explicitar essas potencialidades? Por que diante do
contexto atual de mudanças, marcado pela presença das TIC, precisamos estar
atentos aos alardeados processos de modernização do sistema educacional pautado
no simples uso das ditas "novas” tecnologias, que buscam elevar o mesmo
tipo de educação - centrada no modelo da escola única, no currículo grade - a
um maior grau de eficácia e eficiência. Essas formas de educação precisam ser
repensadas, reinventadas, pluralizadas. As interfaces interativas do
ciberespaço possibilitam justamente a proposição de “outras educações”,
assentes numa perspectiva não-linear, que provocam e sustentam o diálogo e a
produção colaborativa e cooperativa entre os diferentes sujeitos da educação.
Edméa traz essa questão muito bem às p. 119 e 120, quando conclui o parágrafo
dizendo que “Educação online deixa de
ser EAD para ser simplesmente EDUCAÇÃO”.
O mapeamento dessas
características do ciberespaço e suas potencialidades para a educação estão bem
expressas e analisadas por Edméa em seu trabalho. Como esse mapeamento não foi
exaustivo, gostaria de levantar alguns conceitos que Edméa cita e não aprofunda
e outros que ela não cita, como forma de provocar sua atenção para alguns
pontos.
1. p. 48 – fala que
existe uma diferença entre interatividade e interação, mas não diz qual é. À p.
121 e seguintes, quando se dedica à interatividade, fica apenas implícita a
diferença entre esses dois conceitos. Penso que seria interessante incorporar
mais um ou dois parágrafos para explicitar a distinção entre esses os mesmos.
2. p. 56 – traz a
expressão simulacro, mas não conceitua nem referencia. É a partir de
Baudrillard que está falando?
3. p. 77 – quando faz sua análise sobre o
movimento hacker, Edméa traz como uma das características desses sujeitos a
destruição de sistemas. Aqui ocorreu uma confusão de conceitos. Quem apresenta
como característica a destruição são os “crackers” e não os “hackers”. A
identificação entre esses dois grupos vem sendo feita, mas não é aceita pelos
hackers. Estes resolvem problemas e constroem sistemas, e,
principalmente, acreditam na liberdade e na ajuda mútua voluntária. É pela ação
dos hackers que se desenvolveu e cada vez torna-se mais forte o movimento pelo
Software Livre, no mundo inteiro e em especial no Brasil – país que vem liderando
esse movimento. Considero hoje esse um tema fundamental a ser tratado quando
estamos mapeando as comunidades e tribos no ciberespaço. É pela ação dos
hackers que os países em desenvolvimento estão desenvolvendo tecnologias de
ponta, em sistemas livres. Evidentemente que esse movimento comporta um viés
ideológico, mas quando falamos em educação torna-se um ponto fundamental, uma
vez que sua concepção vislumbra a liberdade de produção e compartilhamento do
conhecimento e o desenvolvimento e a independência tecnológica nacional, o que
implica em melhoria da conjuntura sociocultural e econômica do país. No Brasil
hoje, a maioria das iniciativas de combate à exclusão digital vem fazendo uso
de softwares livres e a ação dos hackers vem se destacando nessas experiências.
Também aqui na Faced, hoje, trabalham conosco vários alunos de Ciência da
Computação que fazem parte da comunidade hacker e é assim que gostam de ser
denominados. Considero que uma referência ao movimento pelo uso do software
livre ficou faltando no trabalho de Edméa. Ela faz uma pequena referência à p.
103, quando cita interfaces livres e gratuitas, mas não explora essa idéia.
4. p. 113 –
traz a questão da inclusão/exclusão digital estabelecendo uma ponte com a
questão da exclusão social. É importante a relação que Edméa faz ao dizer que
“vivemos a cibercultura, seja como autores e atores incluídos no acesso e uso
criativo das TIC, seja como excluídos digitais”. Aqui tem um gancho para
explorar um dos fenômenos da contemporaneidade – a exclusão digital. A
percepção de que não viver plenamente a cibercultura é uma forma de vivê-la
merece um maior aprofundamento. Senti falta da exploração desse tema.
Gostaria de
problematizar também o conceito de rede trazido por Edméa à p. 68: “todo fluxo
e feixe de relações entre seres humanos e as interfaces digitais...”
Considerando a análise que fiz sobre o título do trabalho e que me parece ser o
entendimento de Edméa também, dizer que a rede está circunscrita ao ciberespaço
é manter a separação presencial/virtual. Entendo que é necessário abrir esse
conceito de rede, uma vez que transitamos entre virtual e presencial e ao fazermos
isso imbricamos e potencializamos as características desses dois contextos. Sob
o meu ponto de vista a rede, enquanto universo de sentido e também enquanto
estrutura física, alastra-se para fora do ciberespaço. Muitas vezes iniciamos
um diálogo online e o prolongamos presencialmente (ou vice-versa). Nosso
discurso, num espaço, está impregnado pelo que é vivenciado nos demais espaços.
Gostaria que Edméa falasse um pouquinho mais sobre o conceito de rede que está
utilizando.
Gostaria
ainda de problematizar a metáfora da árvore utilizada na construção dos mapas
conceituais – p. 167, apoiando-me numa citação de Sílvio Gallo, no artigo Transversalidade
e educação: pensando uma educação não-disciplinar, publicado no livro : ALVES,
Nilda; GARCIA, Regina Leite (orgs.) O
Sentido da Escola. Rio de Janeiro: DP&A, 2000. Diz o autor: “O paradigma
arbóreo implica uma hierarquização do saber, como forma de mediatizar e regular
o fluxo de informações pelos caminhos internos da árvore do conhecimento. A
frondosa árvore que representa os saberes apresenta-os de forma disciplinar:
fragmentados (os galhos) e hierarquizados (os galhos ramificam-se e não se comunicam
entre si, a não ser que passem pelo tronco)”. Gostaria de saber se Edméa não
considera um paradoxo trabalhar com a metáfora da rede em todo o referencial
teórico e fazer uso de mapas organizados de forma linear e hierarquizada nas
experiências com os professores. Inclusive, às p. 180 e 181 Edméa diz: “Vejamos
a seguir o mapa do planejamento que inspirou a arquitetura do nosso dispositivo
de pesquisa e prática pedagógica, visto como um hipertexto que se auto-organiza
a partir da nossa ação-criadora. Na rede tudo interage com tudo”. No entanto, a
maioria dos mapas apresentados é em forma de árvore. Não consegui perceber essa
interatividade de tudo com tudo...
Algumas curiosidades:
À p. 104 e seguintes Edméa
analisa o curso proposto pela Universidade Anhembi Morumbi, relatando todas as
limitações do mesmo. Então à p. 108 traz um diálogo que manteve com alguém
responsável pelo curso (e que não está identificado) e sua expectativa sobre as
próximas edições. Gostaria de saber se realmente os recursos interativos foram
incorporados nas edições seguintes do curso.
À p. 188 Edméa cita o
AVA COGEAE, mas não diz o que é. Ao longo do texto deduzi que é um ambiente
desenvolvido pela PUC-SP. Fiquei curiosa em saber mais sobre o ambiente. Quem o
utiliza? É software livre ou proprietário? Vale um parágrafo explicativo sobre
o mesmo.
Alguns problemas
apresentados no texto:
1.
parágrafos e seqüências de parágrafos que se
repetem no texto. Ex: p. 66 e p. 97, p.
127 e p. 141, p. 156 e p. 158, p.28 e p. 197
2.
notas de rodapé – problemas na numeração e sem
indicador no texto. Ex. p. 19 e 36
3.
citações. É importante seguir as normas da ABNT.
Encontrei problemas do tipo: várias citações com o nome do autor fora dos
parênteses (outras dentro), nomes do autor em minúsculo (outras em maiúsculo),
citações com referência ao número da página
(outras não), textos recuados com problemas de transcrição, a lista de
referências é mais ampla do que a efetivamente usada e apresenta repetições.
4.
é importante fazer uma revisão do texto – pontuação
e concordância
5.
formatação apresenta alguns problemas,
principalmente no último capítulo – telas e citações quebradas – ex. p. 258
Por fim, gostaria de
dizer da importância do trabalho de Edméa, justamente num momento em que está
sendo regulamentada a oferta, o desenvolvimento e a veiculação de cursos e
programas de educação a distância na educação básica de jovens e adultos,
educação profissional de nível técnico e na educação superior brasileira ,
inclusive com o lançamento, pelo MEC, de edital para chamada de cursos na
modalidade EAD para o ensino superior. Trabalhos como o de Edméa precisam ser
socializados para que contribuam para a proposição de cursos mais abertos e não
tenhamos assim uma repetição de cursos que utilizem as tecnologias para
reforçar a lógica da transmissão, desconsiderando o potencial interativo das
redes digitais.
É um privilégio estar
participando da banca que vai certificar o trabalho. Parabéns!!!!
Salvador, 04 de abril de 2005
Maria Helena Silveira Bonilla