UFSM – CE
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO – MESTRADO
Projeto de Dissertação: Possibilidades e limites da informática na formação dos acadêmicos dos cursos de Ciências Biológicas, Letras, Matemática e Pedagogia da URI – Campus de Frederico Westphalen – RS
Aluna: ELIANE MARIA BALCEVICZ GROTTO
Orientador: Prof. Dr.
Eduardo Adolfo Terrazzan
Parecerista: Profª Drª Maria
Helena Silveira Bonilla
Parecer
As sociedades contemporâneas estão vivendo um processo de busca de inserção no contexto que se abre com a utilização das tecnologias da informação e comunicação. Nesse processo, a educação desempenha um papel crítico, visto estar sendo requerido, tanto das pessoas quanto das instituições, o desenvolvimento de capacidades criativas, analíticas e de compreensão. Especificamente para a escola, isso implica reconfigurá-la, tanto em seus aspectos físicos e tecnológicos, quanto pedagógicos e relacionais. No entanto, existe quase unanimidade entre os professores ao afirmarem a falta de formação para o desempenho das novas funções que lhes são requeridas.
Eliane, em seu projeto de dissertação, aponta as
necessidades e demandas postas à
escola, bem como as dificuldades que perpassam esse movimento. Dentre essas
dificuldades, centra-se justamente na questão da formação dos professores, o
que torna relevante seu projeto.
Dado que as políticas públicas para a área de
educação e tecnologias têm sido canalizadas para a formação continuada dos
professores, as instituições que oferecem cursos de formação inicial, apesar de
terem uma forte responsabilidade em contribuir para formar nos novos
professores um espírito de abertura à mudança permanente, de gosto pela
aprendizagem contínua e de receptividade à inovação e à renovação pedagógica,
não incluem em seus currículos o uso crítico e criterioso das novas
tecnologias, incluindo o conhecimento do seu significado cultural e as
principais implicações sociais.
Em vista disso, Eliane, ao se propor analisar a
forma como está ocorrendo a inserção e a utilização das tecnologias da
informação e comunicação nos cursos de Ciências Biológica, Letras, Matemática e Pedagogia, da URI, uma
instituição de formação inicial de professores, contribui para o mapeamento das
estratégias e concepções utilizadas pelas IES brasileiras na área, o que pode
constituir-se em subsídio para o desenvolvimento de políticas e propostas para
o uso das tecnologias no ensino superior.
Idéias apresentadas pela Eliane que considero
importantes e gostaria de ressaltar:
-
As
tecnologias estão cada vez mais presentes no contexto educativo, o que exige
uma nova visão da Educação, uma nova forma de encarar a formação do indivíduo,
um novo papel a ser desempenhado pela escola, pelos professores e pelos alunos.
-
Necessidade
de repensar os processos de formação dos professores.
-
Necessidade
de uma política institucional para capacitação dos professores. As iniciativas
existentes não atingem um número significativo de professores.
-
Inserção
de tecnologia no contexto escolar não é sinônimo de qualidade de ensino.
-
Embora
as tecnologias possam ser utilizadas das mais variadas formas e não impliquem
necessariamente mudanças de natureza pedagógica, podem, potencialmente,
catalisar formas completamente novas de se relacionar, trabalhar e aprender.
-
A
escola deve incorporar os recursos tecnológicos e a comunicação via redes, elementos
de cooperação e transformação, o que permite estabelecer pontes entre
conhecimentos.
Questões que necessitam aprofundamento:
- As tecnologias fazem parte da cultura, não podem ser negadas. Precisamos conviver, enfrentar os desafios e problemas que provocam. Sugiro que aprofunde esse questão. Enfrentar desafios e problemas pode significar formatar as tecnologias ao modelo instituído, eliminando todos os fatores que possam desestruturar a “ordem” escolar. Creio ser importante trazer um viés propositivo, ou seja, frente aos desafios e problemas, abrir espaços para a proposição do novo, para a emergência de novos desafios e novos problemas. São eles que provocam o movimento e o surgimento de novas práticas pedagógicas.
- Políticas de educação e tecnologias: no início da justificativa, Eliane fala da necessidade de políticas que contemplem medidas necessárias para que a sociedade saiba fazer bom uso desta tecnologia e esteja preparada para as transformações sociais e culturais que advirão de seu uso. O Brasil possui o Programa Sociedade da Informação no Brasil, cujo Livro Verde contendo as diretrizes para a inserção das tecnologias na sociedade brasileira está disponível no site do MCT. Muitas ações já estão sendo desenvolvidas nesse sentido e sugiro que Eliane traga e analise as ações relacionadas à formação de professores, caso existam. Caso não existam, também cabe uma análise.
- Aprofundar a diferença entre Sociedade da Informação e Sociedade do Conhecimento. Tomadas como sinônimos em muitos contextos, no entanto implicam conceitos e práticas distintas.
- No item Histórico das Políticas Públicas, Eliane apresenta as políticas desenvolvidas pelo MEC (especialmente os projetos Educom e Proinfo) voltadas para a formação continuada, e que são políticas restritas. Como a pesquisa está voltada para a formação, em nível de graduação, penso ser necessário trazer as políticas desenvolvidas (ou não) pelo MEC para o ensino superior, especialmente para a formação inicial de professores. Cabe uma análise das diretrizes curriculares dos cursos que irá analisar. Sugiro também que aborde a relação existente (ou não) entre os projetos vinculados às políticas públicas, desenvolvidos nas IES, e os cursos de formação de professores nessas mesmas instituições. Obs: O I Seminário Nacional de Informática na Educação foi em 81 em Brasília, mas o II foi em 82 em Salvador. O Proinfo é de 97 e não de 95.
- No item 2.1.4 sugiro um aprofundamento na questão da transmissão do conhecimento. Aqui está implícita a questão das modalidades de comunicação. A transmissão é própria da modalidade de comunicação unidirecional, podendo ser implementada com base em qualquer mídia ou tecnologia. Mesmo a internet, que apresenta alto potencial de interatividade, pode ser utilizada para a transmissão. A produção e construção do conhecimento implica uma comunicação interativa.
- Sugiro evitar a relação aluno inteligente/computador burro. A questão não é a de ensinar o aluno, muito menos de ensinar o computador. A questão é utilizar as tecnologias para construir ambientes onde possam emergir outras relações, e outras formas de comunicação – entre pessoas, com as máquinas, com o conhecimento.
- Investir na questão do papel do professor. Não é transmissor, mas também não é meramente um mediador (este conceito implica que o aluno, em relação com os objetos técnicos, aprende, cabendo ao professor o papel de mediar a relação, mas como espectador, não implicado no processo). O papel do professor é mais complexo do que isso. Necessita ser produtor de ambientes de aprendizagem, problematizador, desencadeador de processos. A autoria do professor é mais do que nunca requisitada.
- Nos processos de aprendizagem, procurar problematizar a questão de centros fixos: o professor, o aluno. Os centros são móveis – aluno, professor, tecnologias, relações.... todos se relacionam; em alguns momentos uns se destacam, em outros momentos outros, o que permite que todos aprendam, inclusive a escola.
- No item simulação, sugiro o aprofundamento da discussão.
- No item Internet sugiro aprofundar o estudo a partir de algumas categorias básicas: rede, cibercultura, hipertextualidade, interatividade, multivocalidade, trazendo as potencialidades que esses conceitos apresentam para a educação. Trabalhar com a idéia de constituição de redes na escola e não apenas redes de escolas. Em lugar de ter a internet na escola, colocar a escola na internet.
- Trabalhando com a rede, é impossível ter controle e domínio sobre o processo... a abertura ao imprevisto, ao novo é que oferece oportunidade para a vivência da multiplicidade, da hipertextualidade, de aprendizagem flexível, a qual não pode se restringir à educação a Distância. A educação presencial requer isso também.
- No item histórico da URI, sugiro trazer a política adotada pela URI para a formação de seus professores para inserirem-se no contexto das tecnologias da informação e comunicação e utilizá-las em suas práticas pedagógicas.
- No item 2.2.2, onde faz uma análise das diretrizes contidas nos PCNs para a inserção das tecnologias na educação, limita-se aos PCNs para o Ensino Médio. Sugiro um aprofundamento dessa análise, envolvendo os PCNs para o Ensino Fundamental e as Diretrizes Curriculares dos cursos que está analisando, estabelecendo relações entre o que está posto nestes três documentos e trazendo as implicações que representam para os cursos de formação inicial de professores.
Questões às quais sugiro um redirecionamento:
-
Eliane
propõem-se “analisar de que forma está ocorrendo a inserção e a utilização da
Informática nos cursos de Ciências Biológica,
Letras ,Matemática e Pedagogia, a fim de
verificar como os acadêmicos do IX semestre avaliam, nesse momento, a sua relação com a informática, visando, assim, uma maior qualificação da
prática educativa dos acadêmicos neste domínio”. Acredito que não seja “a fim
de verificar”, mas sim “a partir da verificação”. É com base na análise do que
pensam e querem os acadêmicos, e de outros dados que serão coletados, que
poderá fazer um mapeamento da forma como está ocorrendo a inserção e utilização
das tecnologias na Instituição. Cabe também tomar alguns cuidados nessa análise,
visto que para alguns alunos, aqueles que nunca tiveram contato com essas
tecnologias, o mínimo oferecido pela Instituição pode ser entendido como uma
base suficiente para atuar no ensino básico.
-
Eliane
está utilizando vários termos para se referir à relação educação/tecnologias da
informação e comunicação: tecnologia educativa, educação tecnológica, informática educativa. Cada um desses termos carrega
conceitos e concepções ligados a determinadas linhas teóricas, utilizando um
termo da relação para adjetivar o outro, o que condiciona as características de
um às características do outro. Sugiro a problematização e a crítica desses termos e
também que investa na perspectiva da relação ou imbricação educação/tecnologias, pois dessa forma
abre-se espaço para o surgimento de entre-lugares, ou seja, a partir das
características de cada um dos pólos, das instabilidades, dos agenciamentos,
constrói-se algo novo (novos lugares ou não-lugares). Também está utilizando
vários termos para se referir às tecnologias: tecnologia computacional, informática,
sistemas computacionais, novas tecnologias da informação, novas tecnologias da
informação e comunicação. Sugiro a utilização do termo tecnologias da
informação e comunicação, uma vez que hoje, com os computadores conectados em rede,
não tem mais sentido pensarmos em computadores isolados, sem a imbricação com a comunicação.
-
Eliane
faz uma crítica ao modelo de inserção das tecnologias que se limitam a
incrementar o currículo com uma disciplina de "Introdução à
Informática" cujo objetivo é ensinar sobre computação. Como alternativa
apresenta uma outra perspectiva, a do desenvolvimento do conteúdo de
disciplinas curriculares por intermédio do computador, ou seja, o computador
deve ser utilizado como um meio normal de resolução de problemas ligados aos
conteúdos curriculares. Essa é uma perspectiva que toma as tecnologias como
instrumentos de ensino, servindo para reforçar o modelo já instituído. Sugiro
tomar as tecnologias como estruturantes de novas práticas, novas relações, o
que significa, a partir de suas características e potencialidades, abrir espaço
para outras organizações curriculares, mesmo aquelas ainda nem pensadas, outras
relações, outras concepções de construção de conhecimento.
-
Sobre
o item programação: O uso da programação como o caminho para o uso das
tecnologias foi muito difundido na década de 80 e início da de 90,
especialmente com a utilização da linguagem LOGO. No entanto, pesquisas já
mostraram que essa perspectiva não atingiu os objetivos a que se propunham. O uso
é interessante para tratar de alguns temas específicos, mas a idéia de que
programando em LOGO os alunos superariam suas dificuldades de aprendizagem,
desenvolveriam o raciocínio lógico e estariam aptos a aprender conceitos em
qualquer área do conhecimento, não teve sustentação. Hoje, muito poucas
pesquisas seguem esse caminho.
As pesquisas atuais têm sido direcionadas para o
potencial das redes na educação, tendo em vista a necessidade de buscar outros
enfoques, outras bases, já que o trabalho centrado em softwares e programação
não conseguiram dar o salto a que se propunham. Sugiro aprofundar essa
perspectiva, e para tanto, aponto alguns referenciais:
Lévy, Pierre. As tecnologias da inteligência: o futuro do
pensamento na era da informática. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993. 208 p.
Lévy, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Ed. 34, 1999. 264 p.
Silva, Marco. Sala de aula interativa. Rio de
Janeiro: Quartet, 2000. 230 p.
Pretto, Nelson De Luca. Uma escola sem/com futuro. Coleção
magistério: formação e trabalho pedagógico Campinas: Papirus, 1996. 248 p.
Pretto, Nelson De Luca;
(Org.). Globalização & Educação:
mercado de trabalho, tecnologias de comunicação, educação a distância e
sociedade planetária. Coleção livros de bolsa. Série Terra Semeada Ijuí:
Ed. Unijuí, 1999. 116 p.
Ramal, Andrea Cecília. Educação na cibercultura:
hipertextualidade, leitura, escrita e aprendizagem. Porto Alegre: Artmed,
2002. p.
Bonilla, Maria Helena
Silveira. Escola aprendente: desafios e
possibilidades postos no contexto da sociedade do conhecimento. 2002. 304
p. Tese de doutorado - Faculdade de Educação, Universidade Federal da Bahia,
Salvador - BA.
Castells, Manuel. A era da informação: economia, sociedade e
cultura - A sociedade em rede. 1º v. São Paulo: Paz e Terra, 1999. 620 p.
Lemos, André. Andar, clicar e escrever hipertextos.
1998. Disponível em: <http://www.facom.ufba.br/hipertexto/andre.html>.
Acesso em: 07 maio 1999.
Marques, Mario Osorio. A escola no computador: linguagens
rearticuladas, educação outra. Coleção fronteiras da educação Ijuí: Ed.
Unijuí, 1999. 216 p.
Santa Maria, 25 de
abril de 2003
Maria Helena Silveira Bonilla