UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA
FACULDADE DE
EDUCAÇÃO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO
Tese: A LICENCIATURA EM QUÍMICA DA UFBA: epistemologia, currículo e prática docente
Doutoranda: SORAIA
FREAZA LÔBO
Orientadores:
Prof. Dr. Robinson Tenório
Prof. Luis Felippe P.
Serpa (in memoriam)
Parecerista: Profª Drª Maria Helena Silveira Bonilla
– FACED/UFBA
PARECER
Como
professora do Instituto de Química/UFBA, interagindo com os demais professores
e funcionários, esteve naturalmente implicada - “implicar-se consiste em
reconhecer simultaneamente implicar o outro e ser implicado por ele na situação
interativa” (Barbier, 1997:64) - no campo de pesquisa, participando da vida
do grupo, podendo perceber e conhecer os sujeitos, as formas como agem, reagem
e interagem nesse grupo. Portanto, Soraia podia sentir o universo afetivo,
imaginário e cognitivo do grupo para “compreender do interior” as atitudes e os
comportamentos, o sistema de idéias, de valores, de símbolos e de mitos, sua
“existencialidade interna”. Pode reconhecer os sujeitos em seu lugar, na sua
qualidade de pessoas complexas, dotadas de corpo, imaginação criadora, razão,
afetividade, liberdade, em permanente interação.
É possível perceber no texto de Soraia esse pertencimento, mas também o
estranhamento das coisas e acontecimentos, ao subtrair-se da “atitude natural”.
Ao distanciar-se exercendo um papel objetivo de observadora as situações e
acontecimentos tornaram-se estranhos porque revelaram seu caráter socialmente
construído e seus pressupostos de códigos negociados”.
Esse processo de implicação/estranhamento foi o que gerou o problema de
pesquisa e também qualifica a interpretação e análise dos dados feita por
Soraia. A tese está muito bem estruturada, com problema e objetivos bem
definidos. Soraia utiliza uma linguagem clara e fluente, ao mesmo tempo em que
é bastante rigorosa na explicitação dos conceitos que utiliza. Consegue
articular com muita propriedade conceitos, exemplos, idéias, depoimentos, sem
tornar o texto pesado, ou fragmentado, o que provoca no leitor o desejo de
continuar imerso no fluxo da argumentação que ela construiu, um fluxo que vai
dando conta, ao longo do percurso, dos objetivos a que se propôs.
Soraia
aponta a predominância de concepções epistemológicas empiristas-indutivistas e
uma conseqüente prática pedagógica embasada no trabalho experimental
(laboratorial). Ao longo de todo o trabalho fiquei na expectativa de que
surgisse alguma referência de como essas concepções/práticas se articulam com
as tecnologias digitais. No entanto, só encontrei uma indicação, muito breve, à
página 45, quando diz da introdução dessas tecnologias como atualização dos
recursos pedagógicos. Posso com isso deduzir que as tecnologias digitais estão
sendo utilizadas? Caso estejam, é na perspectiva de fortalecer esse trabalho
experimental? Como esse processo está acontecendo?
Por que trago
estas questões? As tecnologias digitais têm sido utilizadas como
ferramentas, recursos didáticos para tornar mais eficientes e eficazes práticas
já instituídas. Com isso, sufocam-se características e potencialidades próprias
dessas tecnologias, formatando-as à lógica de outras linguagens.
Para transmitir
saberes, ou complementar aspectos que não se consegue transmitir pelas
tradicionais exposições, faz-se uso dos chamados softwares educativos. Via de
regra, esses programas procuram “pedagogizar” as temáticas abordadas, ou seja,
formatá-las, enquadrá-las no modelo tradicional de aula, o que mata as
características da linguagem em que está sendo produzido. É o que tem
acontecido com as “simulações” que se dizem educativas. Restringem-se a
animações ou demonstrações simplificadas dos fenômenos. Continuam utilizando a
lógica da representação (mantém a aderência ao real, perspectiva da reprodução
– sujeito, imagem e objeto estão bem delimitados).
No entanto, há
outras formas de compreender e usar os meios digitais. Por exemplo, a simulação
se constitui hoje num paradigma sobre o qual está embasada boa parte da
pesquisa científica de ponta, o que implica uma revolução na forma de fazer
ciência e de concebê-la, isto porque na perspectiva desse paradigma, o
pesquisador não descobre como as coisas são indagando no real, e sim constrói
modelos e a partir deles simula certos fenômenos comprovando seu grau de ajuste
ao que conhece da realidade. A simulação envolve outra lógica: a da figuração
(desliga-se do real – sujeito, imagem e objeto hibridizam-se)
Isso não
significa dizer que a representação não é importante. Ao contrário, precisamos
trabalhar com todas as lógicas, todas as linguagens, todas as tecnologias que
estão à disposição. Agora, não podemos resumir simulação apenas à adição de
movimento ao que é estático, como um complemento ao que está posto. É
necessário pensar a simulação como uma outra forma de pensar, fazer e se
relacionar com o conhecimento, que não exclui as demais formas.
É em função disso
que pergunto a Soraia como esses processos vêm acontecendo no IQ.
Um
outro tema que Soraia toca, mas não aprofunda, é o uso de analogias e metáforas
– página 110 e 230. Fala do uso de analogias e metáforas como forma de tornar o
conhecimento científico mais próximo do conhecimento cotidiano, fazendo também
referência a uma banalização dos conceitos químicos. Gostaria que Soraia
falasse um pouco do papel desses procedimentos no processo de construção do
conhecimento científico. Há alguma imcompatibilidade com a epistemologia
bachelardiana? (À página 21 é dito que o pensamento de Bachelard incentiva a
inventividade no ato de ensinar).
Também,
vários pesquisadores – Glynn, Harrison e Treagust, Cachapuz, Terrazzan, dentre
outros - vêm analisando o uso de metáforas e analogias no Ensino de Ciências.
Essas pesquisas têm apontado que o uso de analogias de forma não sistematizada
podem incorrer em riscos para a compreensão dos estudantes, ou colaborar para a
geração e/ou reforço de concepções alternativas e obstáculos epistemológicos,
mas também apontam para o papel que o raciocínio analógico tem desempenhado na
produção do conhecimento científico, com conseqüências metodológicas para a
educação como um todo, inclusive analisando metáforas fundadoras que procuram
orientar o pensamento na busca de uma representação e
conseqüentemente um conhecimento do mundo, tais como 'O universo é um enorme mecanismo', 'O universo é um imenso organismo',
‘rede: uma nova imagem para o
conhecimento’.
À página 237, ao analisar as
concepções da aluna A9, Soraia aponta para uma maior reflexão realizada pela
aluna ao perceber o ensino como um processo centrado no aprendiz e o professor
como um orientador do aluno e não apenas transmissor do conhecimento. Concordo
com a análise de Soraia, mas irei um pouco mais a fundo. Entendo que manter
centro fixo é manter a mesma lógica – apenas transfere o centro do professor
para o aluno. As análises hoje apontam para a existência de centros móveis – em
alguns momentos é o aluno, em outros é o professor, em outros é o
conhecimento... Também entendo que o papel do professor é muito mais do que
orientador, ele tem como função construir e disponibilizar territórios a serem
explorados, desterritorializados e reterritorializados pelos alunos e por ele
mesmo. Tem como função ainda ser um problematizador...
Por fim, gostaria de dizer da
importância do trabalho de Soraia para a análise dos cursos de Licenciatura,
especialmente para a UFBA. O trabalho ajudou-me a conhecer um pouco mais a
instituição na qual atuo, a pensar sobre as questões postas e sobre muitas
outras relacionadas à educação. É um privilégio estar participando da banca que vai
certificar o trabalho. Parabéns!!!!
Salvador,
01 de outubro de 2004
Maria
Helena Silveira Bonilla