UNIVERSIDADE FEDERAL DA
BAHIA
FACULDADE DE EDUCAÇÃO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO
Dissertação: O PROGRAMA TV ESCOLA NO MUNICÍPIO DE IRECÊ:
limites e possibilidades da educação a distância no interior do Brasil
Mestranda:
TELMA BRITO ROCHA
Orientador: Prof. Dr. Nelson
De Luca Pretto
Parecerista:
Profª Drª Maria Helena Silveira Bonilla – FACED/UFBA
PARECER
Foi um prazer ter lido
a dissertação de Telma. Como desde 2000 participamos do mesmo grupo de pesquisa
aqui na Faced, foi muito bom ver expresso no trabalho reflexões que estamos
fazendo no âmbito do GEC, especialmente no âmbito das políticas públicas para a
inserção das tecnologias na educação. Ao longo desse tempo trabalhamos juntas
em alguns projetos, e foi possível perceber a trajetória seguida por Telma
desde que iniciou como monitora nas disciplinas da Faced, até sua atuação como
professora substituta nesta casa. Foi muito recompensador perceber as
conquistas obtidas por Telma, e também as aflições, ao longo dessa caminhada.
Especialmente sobre a pesquisa de Mestrado, acompanhei o trabalho de Telma,
dando o parecer para a qualificação e também através da atividade Trabalho
Individual Orientado, oportunidade em que procuramos discutir um pouco a
questão das políticas públicas, ou seja, o capítulo 2 da dissertação. Então,
tendo em vista esse “caminhar conjunto”, posso afirmar que Telma está muito
“afinada” com nossa percepção a respeito dessa temática, é uma pesquisadora
responsável e preocupada em contribuir para um uso significativo das mídias na
educação, para além de ferramentas motivadoras.
Considero
extremamente pertinente a pesquisa de Telma, pois o Programa TV Escola é um
projeto do MEC, de âmbito nacional, implantado a partir de 1996, e que deveria
estar sendo utilizado pelas escolas de ensino básico do país, mas que enfrenta
inúmeros problemas em sua operacionalização.
O TV
Escola é um programa da SEED, portanto é uma estratégia de EAD utilizada pelo
MEC. Embora Telma não apresente em sua dissertação um tópico para analisar em
específico o modelo de educação a distância utilizado no programa, as
características desse modelo vão se delineando ao longo da pesquisa: ênfase na
transmissão de informações e não na comunicação – mesmo com o sistema digital,
prevê-se o uso do canal de retorno apenas para pedir conteúdos específicos e
encaminhar sugestões (p.26), ou seja, a produção é centralizada, os professores
estão assujeitados a um modelo imposto, que não sabem a que se destina – nem
secretaria, nem escolas, nem professores conhecem o programa; falta de formação
– sequer treinamento é feito, professores e alunos são submetidos ao papel de
meros consumidores de um modelo imposto.
Com o
mapeamento feito por Telma, no capítulo 2, mais uma vez percebemos que as
políticas de inserção das tecnologias na educação estão centradas na oferta
inicial de infra-estrutura, sem manutenção da mesma e sem articulação com uma
política de conhecimento para o país – se é que ela existe!!!! O que será feito
com a infra-estrutura não é preocupação do Ministério. O máximo a que se propõe
é a produção centralizada e distribuição de conteúdos, na perspectiva dos
parâmetros curriculares, o que não dá margem para a expressão das diversidades
que o país possui. Por outro lado propõe uma política de gestão descentralizada,
que mais é uma atribuição de responsabilidade do que uma co-gestão (p. 37).
Essa ambivalência: centralização da produção/descentralização da gestão leva a
um descomprometimento de todos os segmentos com o programa. O MEC diz que
cumpriu a sua parte, e que o problema está com os professores. Os professores
dizem que não usam porque não conhecem e não têm formação (o que é verdade!!!).
As secretarias não têm condições nem conhecem o que é esperado delas... (p.39).
Em
sua análise, Telma traz um dado que considero importante. Em Irecê o índice de funcionamento
e manutenção do kit tecnológico (analógico) é muito bom (em torno de 90%),
mesmo que apenas 3% dos professores assistam a programação. O que quero
salientar aqui é o diferencial da cultura. Como o vídeo e a TV fazem parte do
dia a dia da maioria da população, mantê-los funcionando e sendo utilizados
para os usos básicos já não é mais mistério - p. 66, p. 72. Mesmo assim,
mantêm-se na comunidade a mesma perspectiva que vemos no restante do país: a
centralidade na infra-estrutura, sem um aproveitamento das potencialidades do
programa. Antena, vídeo e tv funcionam, mas onde está o projeto político
pedagógico para o uso pleno dessas tecnologias? Telma expressa isso à p. 32....
Quem nas escolas sabe que a metodologia utilizada é de ead? Quem discutiu sobre
isso? À p. 44, Telma traz um outro dado referente a cultura – cultura escolar
desta vez. As escolas consideram prioritários o giz, o papel, o estêncil, e não
fitas de vídeo. Esse dado expressa a centralidade da cultura escrita em nossas
escolas.
Nesse
empurra, empurra, vamos fazendo de conta de existe um programa e que o mesmo
está sendo operacionalizado, que tudo vai bem, a tal ponto de estar sendo
implantada uma nova fase do programa – a digital. O problema é que essa nova
versão do programa está sendo implantada dentro da mesma perspectiva, e com um
agravante – as comunidades ainda não possuem a cultura digital. Daí os
problemas com a instalação das antenas. Como as tecnologias digitais são
qualitativamente diferentes das analógicas (p. 28) é impossível esperar uma
transposição de conhecimentos de um modelo para outro – mas parece que é isso
que o MEC está esperando
Sobre
o capítulo 3, gostaria de levantar alguns questionamentos:
À
p.54 apresenta os níveis de interação e interatividade propostos por Lemos,
dizendo à p. 56 que o TV Escola enquadra-se no nível 2 – isso para o kit
analógico. E como poderia ser analisado o kit digital? Em que nível
enquadra-se, tanto potencialmente como efetivamente? Senti falta de uma
reflexão mais articulada entre os conceitos da cultura digital e o programa TV
Escola Digital, em específico. Telma articula mais a reflexão em torno das
questões da educação em geral, do que do Programa em particular.
À p.
60 Telma fala da importância de se fazer uma leitura crítica das informações.
Ok, isso é importante, mas do meu ponto de vista Telma cai na mesma armadilha
que a maioria das nossas escolas têm caído. A centralidade na informação, sem
preocupar-se com a comunicação. Considerando que as tecnologias são de
informação e comunicação e estamos tentando desconstruir um modelo de educação
centrado na transmissão de informações, precisamos articular fortemente os
processos comunicativos para poder propor o novo. Telma mesma toca nisso, à p.
62, quando fala do diálogo, mas penso que poderia ter dado um destaque maior a
essa reflexão.
Sobre
o capítulo 4 gostaria de pontuar algumas questões:
p. 67
– volta a questão da infra-estrutura – Telma diz que não ter um espaço adequado
na escola impede a prática do professor. O deslocamento do kit impede a
instalação do receptor. Mas e qual a finalidade das fitas? Considero esse um
exemplo da falta de projeto político pedagógico. Evidentemente precisamos
brigar por espaços, mas também precisamos ser capazes de criar alternativas. O
depoimento da professora, a p. 68 evidencia isso
p. 73
– Telma afirma que os professores não utilizam o TV Escola porque os temas
veiculados na programação não estão articulados ao planejamento pedagógico
(reforço p. 83) Fiquei perguntando: como os professores sabem isso, se apenas
3% deles assistem a programação? E se for isso mesmo o que acontece, não seria
um bom indicativo de que em Irecê existe uma proposta pedagógica inovadora, que
não está submetida aos PCN? Como vc articula essas questões?
Aqui
também está expresso um conceito do que seja educativo – é apenas o que se
enquadra num determinado conteúdo escolar? Qual o espaço dedicado a pensar a
linguagem, os discursos veiculados por essas mídias? A fala dos alunos – p. 93
e 94 são de uma riqueza imensa: aqui teria espaço para Telma aprofundar as
reflexões sobre a cópia na escola, a imagem, o movimento, a linguagem, a
co-autoria. Senti falta dessas reflexões.
p. 74
– uso do Telecurso (na íntegra) e não do TV Escola (como fonte). Senti falta de
uma maior exploração desse fenômeno. O que tem de especial o Telecurso? Que
articulações políticas foram feitas para que se adotasse na íntegra o
Telecurso? O que não foi feito com o TV Escola? O que perpassa essa opção:
questões de conteúdos ou questões políticas? Da mesma forma, à p. 75 existe uma
predisposição por assistir ao canal Futura. Que fatores estão levando a isso?
Que articulações o Futura tem feito na região?
Na
conclusão Telma retoma a questão da EAD e gostaria apenas de destacar a questão
do distanciamento – p. 95. O modelo de EAD utilizado no Brasil, via de regra, é
um modelo que efetivamente toma como pressuposto o distanciamento (e não estou
aqui me referindo a distanciamento geográfico) – é distanciamento de sentidos.
Enquanto não forem propostas políticas e práticas que tragam para a EAD o
compartilhamento, a co-autoria, a comunicação horizontal, vamos continuar
fazendo pesquisas para concluir sobre as mesmas limitações...
De
maneira geral, a dissertação está bem delineada, os capítulos bem articulados,
possibilitando ter-se uma efetiva compreensão dos processos e práticas
desenvolvidos no município. É um privilégio estar participando da banca que vai
certificar o trabalho. Parabéns!!!!
Salvador,
02 de maio de 2005
Maria Helena Silveira Bonilla
Doutora em