| Educativo!
amarra que impossibilita o vôo
Maria Helena Bonilla Revista de Educação CEAP, n. 33, p. 47-51, 2001. Existem no Brasil, há vários anos, projetos para produção de softwares e programas de TV educativos. No caso da TV, inclusive com canais próprios. Nada contra tais projetos. É de fundamental importância a pesquisa e a produção específicas na área. A questão que levanto está relacionada com a premissa que fundamenta tais projetos, a de que os programas da TV comercial, a maioria dos filmes e dos softwares que estão no mercado, não são educativos. Para iniciar a reflexão, cabe questionar o que se entende por educativo. Se educativo significa estar enquadrado na lógica da educação tradicional, realmente, os softwares e programas em geral, que estão no mercado, não são educativos. Eles veiculam uma lógica que não é a do modelo pedagógico que se usa na maioria das escolas brasileiras. Estes modelos são marcados pela lógica da linguagem escrita, são lineares, contêm uma verdade única, veiculam uma cultura hegemônica, são propícios à classificação e exclusão daqueles que não se adaptam a ele. Por outro lado, se entendermos por educativo ser propício à interlocução/(re)construção de saberes, à articulação de sujeitos e linguagens, sendo nessa interação que os sujeitos (re)significam o que está dado e o que recebem, têm possibilidade de produzir e socializar o novo, então a novela, a propaganda, o filme, os programas de entretenimento, os softwares que estão no mercado, são educativos, estando ou não eles presentes na escola. Mais ainda, se considerarmos educativo apenas aquilo que se enquadre num ou noutro conceito, aqueles que entendem educação como interlocução/(re)construção/articulação de saberes, sujeitos e linguagens podem chegar à conclusão de que o modelo pedagógico tradicional não é educativo. Neste caso, a maioria dos softwares e programas ditos educativos, e até mesmo as nossas aulas, deixam de sê-lo, uma vez que consideram como função da escola apenas a transmissão de informações e entendem educação como um processo individual, dependendo apenas da força de vontade e da persistência de cada aluno, cabendo exclusivamente a este a tarefa de analisar, filtrar e processar as informações que recebe. Frente a isso, o que precisamos é fugir da dicotomia educativo/não educativo e considerar que o sujeito não é um receptor/reprodutor passivo. Ele ressignifica o que recebe. E esse processo é, em essência, um processo educativo, mesmo que a direção dessa ressignificação seja no sentido de acentuar valores que não atendam aos objetivos básicos da educação e dos educadores, ou seja, uma sociedade mais justa e humana, com menos exclusão. Portanto, todo e qualquer programa de TV, filme ou software, é educativo, visto que todo e qualquer sujeito ressignifica o que eles veiculam. Enquanto educadores, inseridos num sistema formal de educação, temos por objetivo básico que nossos alunos conquistem e exerçam a autonomia, a criticidade, a cidadania. Mas como atingir tais objetivos se os fatos do dia-a-dia de nossos alunos estando aí incluída a novela, a propaganda, o filme não são problematizados na escola, o locus propício para a análise e discussão do que vivenciam fora dela? Não são os programas, filmes e softwares em si mesmos que vão conduzir à consecução de tais objetivos, e sim a postura que adotamos frente a eles. Mesmo que não concordemos com os conceitos, os valores éticos e estéticos que muitos veiculam, é ao suspendê-los na instância do dizível, trazendo à tona, desvelando, problematizando, discutindo seus valores, limites e possibilidades, que os mesmos se tornam educativos. Essa suspensão permite que analisemos o fenômeno sob diferentes ângulos, como se estivéssemos livres, voando e percebendo o objeto, a cada momento, de um ponto diferente. Como esse vôo não é feito individualmente, a explicitação dos diferentes olhares, cada um efetuando enquadramentos diversos, vai possibilitar que a complexidade do fenômeno apareça e possamos construir uma compreensão a respeito do mesmo. Compreensão que é sempre provisória, pois a cada novo vôo, novos enfoques vão surgindo e novas compreensões vão se constituindo. Esse processo educativo! não envolve apenas os alunos, envolve também o professor. Em conjunto, professor e alunos constituem compreensões novas a cada etapa da caminhada. Com certeza isso não exclui a possibilidade/necessidade de produções mais específicas, que venham atender a muitas das necessidades da educação brasileira. Entretanto, deve-se tomar cuidado para que nessas produções sejam empregadas as características próprias - técnicas e linguagens de cada meio. O sistema educativo não está em oposição ao sistema comunicativo. Existe uma imbricação entre ambos e a escola precisa fazer uso disso, uma vez que todo ser humano, principalmente os jovens, está imerso nessa imbricação. Em nossa vida cotidiana utilizamos lógicas e linguagens variadas sistema comunicativo para interagir com os outros e com o mundo, o que culmina num processo de ressignificação desse mundo, ou seja, num processo educativo, sendo que, quanto mais diversificadas forem essas lógicas e essas linguagens, mais rico será o processo de ressignificação. O que tem acontecido, na maioria das vezes, é que ao enquadrar uma linguagem no molde educativo, a mesma é desconfigurada, pois abafa-se ou mata-se suas características próprias, transformando-se o produto numa cópia da aula tradicional, expositiva, e do material impresso que sempre foram utilizados pela escola. A única novidade que apresentam é a veiculação dos mesmos conceitos e valores por um outro meio, em um outro suporte. Isso amarra fenômeno e sujeito em pontos fixos e extremos, possibilitando um único ângulo de visão e análise, o que provoca um recorte, uma simplificação, tanto do próprio fenômeno quanto do processo de compreensão, e elimina a possibilidade de voar, os múltiplos olhares que trazem à tona a complexidade do contexto abordado pelo programa. Na falta de um conhecimento mais
aprofundado, por parte dos educadores, a respeito de cada
linguagem, de cada lógica, da necessidade que o ser
humano tem de interagir com esses diferentes para que o
seu processo educativo seja o mais significativo e
consistente possível, surge então o argumento de que
o mesmo, via TV ou computador, é mais
atrativo para o aluno, como se esta fosse a única
e a mais importante finalidade do uso dessas tecnologias.
A Portanto, os projetos para produção de softwares e programas educativos devem oportunizar, em primeiro lugar, o embasamento teórico dos seus produtores, principalmente dos educadores que participam do processo. Isso porque, normalmente, para produzir esses programas e softwares, forma-se uma equipe multidisciplinar, que irá determinar a forma e o conteúdo dos mesmos. É de fundamental importância e isso vem ocorrendo a presença dos educadores em tais equipes! O problema é que muitas vezes esquece-se que esses educadores não possuem conhecimento a respeito das especificidades dessas linguagens, assim como a maioria dos profissionais que compõem essas equipes não possuem conhecimento a respeito da importância da imbricação entre elas para o processo de construção do conhecimento. A concepção de educação que perpassa essas equipes continua sendo a mesma de sempre. Com isso, acabam impondo a lógica e as especificidades da linguagem escrita ao novo produto, conseguindo como resultado um frankenstein, que pouco ou nada acrescentam à mesmice de sempre. O que precisamos é nos livrar das amarras que nos prendem a essa mesmice para que possamos dar asas à imaginação, voar livres, ver com olhos de abelha e mergulhar na complexidade que nos rodeia para podermos (re)significar, compreender, o contexto onde estamos imersos. |