REFLEXÕES SOBRE TEMÁTICAS ABORDADAS NA

22ª REUNIÃO ANUAL DA ANPEd  

Maria Helena Silveira Bonilla, Maria Izabel Ribeiro, Edite Maria da Silva

Gerir: Informativo do Programa Gestão participativa, Núcleo Temático Gestão em Educação do PPGE/FACED/UFBA. 

Salvador - BA, v. 5, n. 11, 01 dez. 1999, p. 9-10.

 

De 26 a 30 de setembro de 1999 ocorreu em Caxambu-MG a 22ª Reunião Anual da ANPEd (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação), abordando o tema “Diversidade e Desigualdade, desafios para a educação na fronteira do século”. Do evento participaram sete alunos do Programa de Pós-Graduação em Educação – Mestrado e Doutorado – da UFBA, que contaram com o apoio financeiro do Programa Gestão Participativa, vinculado ao Núcleo de Gestão do referido programa de Pós-Graduação. 

Os participantes inseriram-se, como ouvintes, nas atividades dos Grupos de Trabalho – GTs – e Grupos de Estudos – Ges – que tratam da linha de pesquisa de cada um - mini-cursos, mesas redondas, sessões especiais, conferências, debates, apresentação de trabalhos -, com o objetivo de obter uma visão, o mais abrangente possível, do que está sendo pesquisado e discutido hoje nas diferentes linhas temáticas propostas pela ANPEd. 

Como contribuição, estamos socializando o material adquirido – CD com os textos dos trabalhos apresentados, bibliografia indicada, livros e apostilas -, com a finalidade de que os colegas interessados possam ter acesso a esse material e que, a partir deles, possamos aprofundar nossos estudos e discussões sobre a Educação. Dando início a esse processo, estamos apresentando o presente texto, que procura sistematizar algumas das idéias que perpassaram as discussões empreendidas nos diferentes GTs e GEs. 

Educação infantil 

No GT 07 – Educação da criança de 0 a 6 anos – as sessões de atividades – apresentação de trabalhos, pôsteres, mesas redondas, mini-curso, etc – contaram com a participação de profissionais e/ou pesquisadores(as) interessados e envolvidos com os temas da e sobre a Educação Infantil, dentre eles(as): Sônia Kramer, Maria Lúcia de A. Machado, Maria Clotilde Rossetti-Ferreira, Tizuko M. Kishimoto, Eloisa Candal, Ana Beatriz Cerisara, Fúlvia Rosemberg, Silvia Helena Vieira, além de mestrandos e doutorandos em Educação de diversas regiões do nosso país. 

O GT 07, coordenado por Ana Lúcia Goulart de Faria, contemplou discussões atuais referentes a questões como: o atendimento de qualidade às crianças de 0 a 6 anos, a especificidade da educação infantil, a formação dos profissionais que atuam nessa área, o desenvolvimento de políticas de educação para essa faixa etária, dentre outros. 

A Educação Infantil, a partir da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (lei nº 9.394 de 1996), é considerada como a primeira etapa da educação básica tendo “como finalidade o desenvolvimento integral da criança até seis anos de idade, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade.” (título v, capítulo II, seção II, art. 29, p. 29). Desde a Constituição Federal de 1988 a educação infantil é reconhecida como política educacional podendo ser oferecida em creches e pré-escolas, além de ser assegurada como direito da criança pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (1990, capítulo IV, art. 53, p. 16), onde a criança assume seu papel de sujeito, cidadã de direitos. Entretanto, essas conquistas ainda precisam ser evidenciadas na prática, como também os diversos aspectos implicados devem ser considerados na discussão do processo educacional para que o acesso e, principalmente, o atendimento de qualidade sejam garantidos. 

Aqui no Brasil, a educação infantil, ao longo da sua história, traz em sua(s) prática(s) propostas de caráter assistencial e de caráter educativo, prevalecendo um ou outro aspecto no cotidiano das instituições. Atualmente, essas concepções, com uma visão fragmentada e dicotômica, estão sendo amplamente  discutidas no intuito de valorizar e garantir a indissociabilidade do cuidar/educar como função das instituições que oferecem atendimento às crianças pequenas (0 a 6 anos). Possibilita-se, dessa maneira, a reflexão sobre a especificidade da educação infantil, a importância de evidenciar seus pressupostos, sua fundamentação, suas concepções e propostas, assim como a preocupação com a formação dos profissionais que atuam nessa área e com o desenvolvimento de sua política. 

Nesse momento histórico caminhamos (professores, pesquisadores, consultores, pais, comunidade, etc.) na direção de construir uma educação infantil que respeite a criança, suas linguagens, expressões e direitos, atentando para a diversidade social e cultural de nosso país, no sentido de garantir um atendimento de qualidade. Esse é o grande desafio! 

Formação de professores  

No que se refere às discussões realizadas a respeito da temática “formação de professores”, observa-se que, atualmente, na realidade escolar, inúmeros obstáculos estão permeando o processo de ensino-aprendizagem, particularmente no que diz respeito à ineficiente e precária formação de professores que trabalham com educandos oriundos das classes populares. 

Formar professores num contexto de mudanças requer prática reflexiva e visão crítica sobre aspectos 

que perpassam a educação; infelizmente essa prática reflexiva não está acontecendo de maneira coerente e comprometida com os interesses da classe popular. 

As limitações na formação dificulta a participação nos debates globais, conseqüência da falta de reflexão, debates globais, conseqüência da falta de reflexão, criticidade e principalmente da tomada de atitude que vise a transformação social. Observa-se que dentre os problemas enfrentados atualmente na escola, a falta de mobilização dos educadores diante das péssimas condições de trabalho e da baixa remuneração inibe a contestação e consequentemente a busca da transformação no processo educativo, o qual faz parte de uma realidade complexa, onde busca-se um mundo unitário e globalizado, tentando-se ignorar as diversidades, as pulverizações e as contradições. 

Quanto ao papel do educador, procura-se transformá-lo no investigador democrático, aquele que além de possuir teorias, investiga, reflete e transforma. Desta forma, surgem, em diferentes âmbitos de sociabilidade, particularmente o da escola e da universidade, propostas, desafios e reivindicações para superar as dificuldades sociais. No entanto, não observa-se nenhum projeto que viabilize a superação dos graves problemas sociais da população e não há articulação consolidada entre os diferentes segmentos da sociedade para exigir os direitos e trabalhar defendendo os interesses da coletividade. 

Ainda que não seja a única instância que pode possibilitar o debate e a discussão, a escola é a instituição, por excelência, que tem a função de trabalhar com o conhecimento sistematizado, desenvolver e fomentar o pensamento crítico, reflexivo  e transformador. 

Educação e Comunicação  

Quanto às discussões realizadas na linha temática Educação e Comunicação, trazemos a reflexão a respeito do “mito do mono” presente na Escola atual. 
O que é o “mito do mono”? Os referenciais da escola atual estão embasados na racionalidade que surgiu com a Modernidade e com o advento da linguagem Escrita. Tais referenciais têm como base o princípio da formação científica, a existência de um conhecimento “verdadeiro” – o da cultura dominante – que deve ser transmitido ao aluno, sendo o professor o detentor e controlador dessa verdade. Nessa perspectiva, o conhecimento se dá na relação sujeito/objeto, é linear, necessitando por isso definir pré-requisitos, habilidades básicas, conteúdos mínimos, seriação, etapas pelas quais os alunos têm que passar e, quanto mais conteúdos o professor transmitir, numa dimensão “internalista” do conhecimento, mais saber será dominado pelos alunos. A aprendizagem é vista como um processo estritamente individual, dependendo apenas da força de vontade e da persistência de cada aluno. 

Uma vez centrada nesse modelo, a escola atual, assim como não conseguiu abranger a racionalidade própria da oralidade, também não consegue abranger toda a complexidade do mundo atual e incorporar as novas formas de organização, de pensamento e de construção do conhecimento que estão emergindo com as Novas Tecnologias da Informação e Comunicação. 
As Tecnologias, na Escola, são vistas e usadas apenas em sua dimensão instrumentalista, o que sujeita alunos e professores a meros consumidores de cultura e conhecimento. A ação destes reduz-se a mera cópia, repetição, correspondência/reflexo do que está posto, quer seja dos programas que são impostos aos sujeitos da educação, quer seja do que as Tecnologias disponibilizam. 

O “mito do mono”, portanto, nega a diversidade, impede que alunos e professores transformem-se em produtores/criadores de cultura e conhecimento, impossibilita a dialogia entre as diversidades, sejam elas de línguas, de linguagens ou de culturas. 
As Novas Tecnologias da Informação e Comunicação podem levar à desmistificação dessa concepção, à medida que oportunizam a criação do novo, a construção de novos modos de dizer o que queremos dizer, a possibilidade de promover/incentivar, e não só respeitar, a permanência da diversidade, a transformação de alunos e professores em proponentes, não mais em seguidores de ordens preestabelecidas ou de programas prontos, o estabelecimento de outros caminhos de busca e acesso, não apenas de recepção de informações, a transformação/modificação das concepções de docência, da relação professor/aluno, o estímulo à novas formas de organização e espaços de trabalho. 

Nesta perspectiva, ao provocar novas relações pedagógicas, exigir novas plataformas de trabalho, de organização da escola, de competência técnica e política do professor, a tecnologia deixa de ser usada em sua dimensão apenas instrumentalista e passa a ser estruturante, instituinte de uma nova dinâmica, o que implica na estruturação de novas formas de pensar, de novas possibilidades de criação coletiva, de aprendizagem cooperativa e de colaboração em rede, no acompanhamento e na ampliação de uma profunda mutação da informação e da relação com o saber e na discussão sobre o funcionamento das instituições e dos modos habituais de divisão do trabalho, tanto nas empresas quanto nas escolas. 

Esperamos que estas idéias possam motivar outros debates e também instigar os profissionais da Educação a participar de fóruns de debates a respeito da temática de seu interesse, o que é de fundamental importância para a constituição de um coletivo crítico e atuante.