MSN  |  Aonde  |  AltaVista  |  Cadê  |  Yahoo  |  Google  Miner  |  Prossiga  |  Tradutor  Usina do Som

CNPJ: 04.027.378/0001-30                  

AOL |

Msg Celular

|

BOL | Terra | UOL |

StarMedia

|

LigBr

| IG |

Globo

|

HPG

| iBEST | Insite | ZipMail
Filosofia

Destaque

Principal
Diretoria
Currículo
Cic.Naturais
Fluxograma
Calendário
Matrícula
Calouros
Estatuto
Contato
Horário

Ciências

· Biota
· Botânica RBB
· Butantan
· Casa da Ciência UFRJ
· CiênciaHoje
· ComCiências
· Estação Ciência USP
· FAPESP
· Galileu
· Geociências USP
· National Geographic
· SBPC
· Scientific American
· Superinteressante
· Ver Ciência

Meio Ambiente

· Agência da Água
· Caminhos da Terra
· CRA
· Ecologia
· GreenPeace
· Ibama
· Instituto de Botânica
· IPEF
· M. Meio Ambiente
· Ondazul
· Renctas
· Revista Natureza
· Soc Botânica
· ZooBotânica
· WWF

Saúde

· ABC da Saúde
· Agenda Saúde
· AIDS
· Anvisa
· Bem Star
· BoaSaúde
· Cons. Nac. Saúde
· Corpo e Saúde
· Fiocruz
· FUNASA
· GAPA
· Gineco
· GastroNet
· INCA
· Ministério da Saúde
· OMS
· Saúde
· Sec Saúde-SP
· Vida e Saúde
· Web Saúde
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DO CRISTIANISMO ÀS MINHAS INDAGAÇÕES

Bergue Oliveira Rios
berguerios@bol.com.br

ERA UMA VEZ

Ao longo da história dos seres vivos, parece notório que, dentre as muitas espécies de animais que desapareceram, a extinção dos dinossauros há 65 milhões de anos, grupo que habitou a terra por aproximadamente 160 milhões de anos, criou condições para o surgimento e evolução de outras, particularmente a espécie humana (Homo sapiens); já que seria pouco provável o homem sobreviver ao mundo dos dinossauros.

 

Com isso, por acaso, de repente, o homem se vê num mundo cheio de mistérios. Então, depois de começar a perder muito daquele seu jeitão de “bicho-do-mato”, ou seja, homem selvagem, ele se pergunta: Quem sou? Por que existo? E qual a razão de ser disto tudo?!

Estas indagações, sem respostas, angustiavam demais ao homem. Parecia que o arquiteto de tamanha façanha não queria manifestar-se, nem revelar os segredos de sua majestosa obra. Já havia passado milhares e milhares de anos desde a sua origem. E o silêncio imperava. Não existiam impressões em rochas, nem, sequer, um artigo sobre o qual ele pudesse se debruçar e resolver os problemas da sua inquietação filosófica; o que o deixava com um sentimento de impotência diante da situação. Viver parecia simplesmente existir. Tudo era obscuro e sem sentido. Nada podia ser feito.

Mas, surpreendentemente, eis que uma voz rompe o silêncio e diz: Eu sou Deus, o Senhor de todas as coisas, e tudo o que no mundo há é obra de minhas mãos. Agora, prepare-se, porque tudo que ao homem convém saber, Eu lhe direi. E o homem não negligenciou àquela voz. Rapidamente, apanhou pincel e pergaminho e começou a registrar como se deu a origem de todas as coisas, inclusive, a história da humanidade, conforme estava sendo narrado: “No princípio, criou Deus os céus e a terra. E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas. E disse Deus: Haja luz. E houve luz(...) Ajuntem-se as águas debaixo dos céus num lugar; e apareça porção seca(...) E disse Deus: Produza a terra erva verde(...) Haja luminares na expansão dos céus, para haver separação entre o dia e a noite(...) E assim foi. (...)Produzam as águas abundantes répteis de alma vivente(...) Produza a terra alma vivente conforme a sua espécie(...) E viu Deus que era bom. E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança(...) E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom; e foi a tarde e a manhã: o dia sexto(...) (Gênesis: cap. 1)”

Ora, completadas 144 horas ininterruptas de revelação, o homem estava tão exausto, que desmaiou de sono e fraqueza, e só acordou seis dias depois. Quando, então, refez o ânimo e à lucidez, e, como o verde que brota das cinzas, pode perceber quão arduamente tinha exercido o seu ofício de escriba, ultimamente. Pois havia uma grande quantidade de pergaminhos manuscritos. Os quais, muito tempo depois, foram reeditados em papel; reunindo mais de sessenta livros, em volume único, denominado Bíblia.

Pronto! Agora o homem não precisava mais se atribular com os mistérios da vida nem do cosmo. Tudo que ele precisasse saber, era só recorrer àquele manual, e todas as explicações seriam obtidas. O livro falava sobre tudo. Era uma novidade fantástica! Ninguém tinha visto algo igual, até então. Poder-se-ia considerar um marco histórico; e com um detalhe: era uma obra perfeita. Uma vez que não se poderia esperar o contrário de quem a fez. O autor de tantas obras fascinantes não iria decepcionar na simples produção de um livro.

Bem, é claro que não se deve desprezar a possibilidade de o escriba ter deturpado, aqui e ali, o sentido de alguma frase, já que, conforme o dito popular, todo tradutor é um traidor.

O certo é que a leitura desse livro se tornou um hábito, criando regras sociais rigorosas. Ninguém se interessava mais por compreender os fenômenos da natureza, ou outra questão qualquer, numa abordagem que fosse diferente do seu conteúdo. Saber quem fez e como fez, era o bastante. Imagine se alguém teria atrevimento de perguntar como foi formada a matéria, já que antes o universo era um abismo vazio! Ou mais, se somente havia o nada absoluto, e o nada é o não ser, sem consciência ou poder de formar algo, como, abruptamente, do nada infinito surge "um ser" que, somente usando do recurso da palavra (faça-se isto ou aquilo), constrói toda esta imensidão de mundo em apenas seis dias? Ah, mas isto é muita audácia, é querer demais, diria alguém. Ora, "Ele" além de ter feito tudo sozinho, ainda querem satisfação! Tenha paciência!

Mas, enfim, a Bíblia norteava à vida das pessoas e, como não haveria de ser diferente, o homem continuava a examinar às "escrituras", quando chegou num trecho que lhe chamou atenção. Havia um acorde dissonante. Um, digamos assim, pequeno problema. Era um daqueles tipos de assuntos que as pessoas geralmente gostam de bisbilhotar: o primeiro casal da espécie humana (Adão e Eva) tinha cometido um deslize muito grave. E isso tudo iria trazer sérias conseqüências para a humanidade.

Veja que interessante: estavam Adão e Eva passeando no paraíso quando se depararam com uma árvore cujos frutos lhes pareceram muito atrativos; só que antes de prová-los, Deus intervém e determina: “Do fruto desta árvore não comereis”. Adão ficou aborrecido, mas superou a questão. Eva, todavia, ficou foi mais curiosa e tentou convencer Adão a não levar muito a sério àquela ordem: Ah, benzinho, não fique aborrecido, o que há de errado em se comer uma fruta? Vamos fazer o seguinte: eu vou lá, tiro a fruta, a gente come e Ele nem vai se importar com isso. Só estava mal humorado.

O certo é que, depois de ter sido colocado num lugar muito bonito (o paraíso), onde se podia comer de tudo ou, para ser mais preciso, de quase tudo, o casal não resistiu à tentação e comeu do fruto de uma árvore que não se devia comer, segundo Deus. Caindo, assim, num ato de desobediência lastimável. Pois a tal fruta tinha um poder de despertar, no homem, uma maneira de ver as coisas (e como!) nada agradável aos olhos de Deus, fazendo com que o "Criador" se afastasse desse e retirasse toda a sua regalia de "jardim cinco estrelas", transformando-o num peregrino sem rumo.

E agora? Longe de Deus, expulso do "paraíso", amaldiçoado e sem o conforto de antes, o que fazer? O homem busca imaginar-se na situação de Adão e Eva.

Acontece que, no processo constante de busca de familiarização com o conteúdo do livro, o homem chegou a uma compreensão nada agradável às suas pretensões. Ele entendeu que, enquanto não se resolver o problema do pecado, por natureza, todo homem é pecador. Uma espécie de herança maldita que passa de geração a geração. Nada diferente da situação anterior: cada homem continua sendo um Adão e cada mulher continua sendo uma Eva. O que, na verdade, é muito pior, pois, além dos pecados que já existiam, o homem criou muitos outros, tornando-se mais pecador ainda. Isto sem contar àqueles que perderam a noção do perigo e fizeram do próprio pecado uma profissão.

Mas que situação, pensa o homem? Teria sido melhor não ter lido nada disso; ao invés de melhorar as coisas, ficou muito pior.

Então o homem ficou muito mais atordoado; não sabia como sair dessa situação-problema. Até que algo, como que uma voz interior, falou a sua mente: Calma! Não há motivos para desespero. Você descobriu que, por herança ou por ofício, você também é um pecador. Mas paciência; pecou, pecou; não tem mais jeito. A questão agora é: o que fazer para limpar a sua ficha lá em cima? Sim! Pois tudo que se faz aqui é registrado lá em cima. Portanto, o homem pensou, pensou... e subitamente lhe veio uma idéia: Ah! “o livro”! Quem sabe, mais adiante, ele não aponta uma saída? Não é possível que ele seja só “dedo-duro”; sirva só para apontar nossos erros.

Assim ele passava dias e mais dias procurando trechos que esclarecessem às suas dúvidas e norteassem o seu caminho. Até que, depois de muito tempo, numa busca incessante, pois o livro parecia ter sido feito só para condenar às pessoas, o homem se depara com uma passagem que lhe traz um certo alento, pois diz respeito a sua situação. Então ele lê: “Eis que o homem pecou e destituído está da “gloria de Deus”. E leu mais: “Maldita é a terra por causa do pecado”. Ah, mas que palavra mais “dura”, pensou. Isto não resolve o meu problema, só piora as coisas. Entretanto veja só o que ele acha em outro trecho adiante: “Caso o homem se arrependa de todo o mal que fez e cumpra algumas exigências, o Senhor tirará todo castigo, devolverá tudo que ele perdeu, inclusive, a vida eterna”.

Que maravilha! Está solucionado o problema. Agora o homem já sabe quem é, de onde veio, no que falhou e como corrigir o seu erro. É somente seguir estas orientações, e pronto! Fica tudo quite com Deus e tudo volta a ser como antes.

Finalmente, o homem se empolga, pois acha que encontrou o caminho. Mas, na verdade, isso é apenas a ponta do barbante; uma peça do quebra cabeça. Mais adiante, talvez fique gélido, sem graça ou, quem sabe, amaldiçoe o seu nascimento, quando souber o que terá de fazer, de fato, para alcançar o tão desejado perdão do Bondoso Criador. Visto que Este está cobrando tanto pela maçã que Adão e Eva comeram no Jardim do Éden (se é que comeram toda) que, nem colhendo todos os frutos do nosso planeta daria para pagar tamanha dívida. E olha que, por sorte nossa, o casal não quebrou nenhum galho da tal planta!

Mas, fazer o quê? Deus não aceita argumentos. De nada adianta dizer que sua sentença foi arbitrária. Nem que o Seu badalado livre-arbítrio é tendencioso. Pois só há dois caminhos: céu ou inferno. E ninguém, de são juízo, quer ir para o inferno, porque lá a temperatura é muito alta e, além de não ter água - o que já seria suficiente para inviabilizar a agricultura - a ciência ainda não inventou nenhum tipo de roupa que nos proteja do ardor do fogo.

De sorte que, embora os conceitos de justiça e amor de Deus nos pareçam contraditórios e inadequados à nossa realidade; não tem jeito; está escrito que, somente submetendo-se à vontade Dele, o homem terá a salvação eterna. Então o homem lamenta: Mas que infelicidade a nossa, antes tivesse contado com o livre-arbítrio do urubu, que, mesmo depois de ter descoberto o jogo sujo do sapo, exigiu somente uma coisa desse: Quer que eu lhe jogue na água ou no fogo?

Mas não há escolha. Deus quer se divertir e quer espetáculo. Ora, que as cortinas permaneçam abertas e as cobaias, em cena. A Bíblia diz que o reino de Deus é tomado à força. Portanto, não é uma doação generosa; é algo a ser conquistado. É um jogo com platéia, inimigo e tudo... Requer estratégia e sacrifício; pois, além do caminho ser estreito, poucos serão escolhidos. A salvação é a meta, mas o pódio não cabe todos.

Assim o homem descobre que precisa aprender mais coisas e que não está tão informado como pensava. Então ele segue em frente, perseguindo o seu objetivo, até que encontra algo novo: vários profetas falando sobre à vinda de um certo Messias (Jesus), que nascerá em Israel, será traído por um de seus discípulos (Judas) e sob gozação, humilhação, carregará uma cruz de madeira pelas ruas de Jerusalém e, nela, será crucificado e morto. Tudo por amor à humanidade. Só para salvar o homem do pecado e da ira de Deus.

Ah, mas que frustração, além de ser privado de tantas coisas consideradas pecados, ou seja, que alguém considerou pecado, depois de morrer, ainda vou ter que esperar todo esse processo acabar? Mas que Deus burocrático! Faz o mundo em seis dias e, só para conceder um perdão, cria toda uma dificuldade, uma dramatização! Para que fazer Jesus passar por todo esse ritual de dor e morte, e isso ainda é só uma parte desse “genial” plano de salvação do homem? Não seria mais prático perdoar, e pronto?!

E, afinal, que “amor de pai” é esse... que, podendo resolver um problema de várias maneiras, escolhe uma, onde, além de oferecer o seu único filho em sacrifício – como ovelha que vai ao matadouro –, fica, de camarote, assistindo o seu rebento ser tripudiado, espancado e morto, como se fosse um brinquedo qualquer, entregue à diversão macabra de pessoas brutais? Ora, qual é o pai, numa situação como essa, caso não houvesse outra alternativa, não arrebataria a cruz das mãos do filho e a levaria com bravura, sofrendo em seu lugar?!

A FÉ NA CONTRAMÃO DA RAZÃO

O tempo passava e, assim, o homem levava uma vida simples, trabalhando arduamente para o seu sustento, acreditando nas promessas de um mundo melhor. Embora, nos momentos de folga, ele se entregasse a certas vadiagens menos monótonas e mais suaves que, depois de nove meses, resultavam sempre no milagre da criação.

O certo é que o “crescei e multiplicai” foi cumprido a risca, promovendo um aumento muito grande da população. Fato que desencadeou a necessidade de se produzir mais bens de consumo, melhores instrumentos de trabalho, técnicas de produção e a capacidade de dar respostas cada vez mais complexas e eficientes aos problemas sociais emergentes. Visto que os antigos paradigmas tornavam-se obsoletos frente às necessidades de cada nova realidade vivenciada. Exigindo da sociedade um conhecimento qualitativamente mais aprimorado.

Assim, se tornava uma verdadeira bola de neve; quanto mais o homem interagia com o seu meio, maiores eram os desafios enfrentados. De forma que, quanto mais ele respondia às dificuldades encontradas, mais diversificadas e profundas ficavam as necessidades de responder aos problemas. Parecia um jogo infindável. No entanto, o homem se sentia cada vez mais atraído e tentado a jogar. Já se tornava um vício prazeroso, uma mania. Embora ele não soubesse das conseqüências marcantes que esse seu tipo de lazer iria trazer. Motivado pela curiosidade e necessidade de aprender, criar, indagar e responder; agia como se fosse uma criança incansável. Desta forma, a sociedade seguia dialeticamente o seu rumo histórico.

Até que, em 1564 nasce, dentre muitos, o menino Galileuzinho, que, entre outras coisas, desde cedo, tinha desenvolvido o espírito de observar as coisas e criar seus próprios brinquedos. Só que o mundo lúdico desse menino tinha algo diferente dos demais coleguinhas. É que ele, embora pequeno, pensava grande e queria enxergar coisas distantes. Então construía seus instrumentos e, imediatamente, ia brincar de vasculhar o céu. É claro que ele fazia isso escondido. Pois, além de está infringindo a lei do limite de exploração do espaço aéreo permitido pela “Santa Inquisição”, ele sabia que o mundo dos adultos era finito; e, talvez, não compreendessem àquela traquinagem de menino procurando coisas que nem gente grande admitia existir.

Enfim, todo esse processo levava o homem à satisfação de dominar o saber, atender às necessidades sociais e alimentar a fome da inquietante curiosidade humana.

Assim, a busca constante, a vontade veemente de dominar o desconhecido fez com que o homem se aprimorasse tanto na arte de pensar que, além de querer expandir mais o seu campo de conhecimento, ele resolveu fazer uma reflexão crítica sobre todo saber até então acumulado. Quem sabe, uma viagem epistemológica.

Ora, esse novo exercício de pensar o já pensado; de reconstruir o caminho, fez o homem se deparar com verdades que estavam em contradição com novas descobertas científicas.

Então o homem refletiu: Se a Bíblia é a “boca” de Deus falando aos homens, e sendo este um ser perfeito, por que ela afirma coisas que não correspondem à realidade? Será que Deus falhou ou mentiu? Existe de fato um fundamento nesta mensagem? Ou estamos como cegos, envoltos numa nuvem de trevas, esse tempo todo? Afinal, como compreender uma verdade que, de repente, é uma mentira?

Parecia que o germe da razão tinha entrado em ação. O homem passou a questionar e duvidar de tudo. O espírito cartesiano estava se alastrando por toda a terra. O atrito entre fé e razão era inevitável. Pois o homem estava se sentindo traído e subestimado, tanto por Deus, como pelos seus representantes terrestres.

Por esse motivo, ele procurou elaborar uma maneira mais segura de construir o conhecimento. Uma forma cuidadosa, metódica. Não queria mais intermediários nesse processo. Pois, se a mente pode conhecer, o homem pode pensar por conta própria. Ele é livre e capaz de compreender o mundo.

Essa nova postura do homem frente à realidade, além de questionar a teoria criacionista, contestou o poder da Igreja Católica e criou uma crise que abalou as estruturas de uma concepção religiosa que reinou soberana por toda Idade Média, no mundo ocidental.

Muitas pessoas não estavam entendendo mais nada. A confusão era geral. O que para uns era visto como uma revolução intelectual, uma nova fase da história; para outros, não passava de um inferno astral. Ninguém tinha certeza de mais nada. Nem onde ficavam as coisas do cosmo. Pois, além de arredondarem a Terra, levaram-na para um lugar bem distante do centro do Universo. Derrubaram os muros que separavam o homem do infinito e, como se não bastasse, entulharam todo o abismo que contornava a Terra.

A sociedade tinha pressa em passar a limpo toda aquela página manchada da história. Não bastava iluminar às trevas; mas aniquilá-la. Fundir os alicerces da ilusão desmedida e trazer o homem para o mundo real, libertando-o do jugo da ditadura religiosa, resgatando-o de um período em que, a Igreja Católica foi o diabo, em nome de Deus; a ditadura, em nome da liberdade; e pregou a salvação e a vida eterna, matando e derramando sangue de pessoas; principalmente, as que tinham coragem de questionar as verdades que lhes eram impostas, ameaçando descosturar o tecido das cortinas do quintal do céu da realidade divina.

Não é querer ser positivista; mas aquilo que não pode ser experimentado pela razão, nem provado pela ciência, também não deve ser pregado como verdade; pois não há como se convencer alguém acerca de uma percepção cuja veracidade dos fatos não tenha passado por um processo peculiar de compreensão da mente criticamente desenvolvida. Tudo que, a priori, é desconhecido, não deve ser negado, nem afirmado, nem aceito. Quando não há elementos suficientes para se sustentar uma idéia, o mais coerente é duvidar e investigar os princípios que a fundamenta.

Portanto, dizer que algo é verdadeiro só porque está escrito, não significa nada; uma vez que os mitos, as lendas e as promessas dos políticos... quase tudo está escrito.

Então quais são os elementos que dão consistência, por exemplo, à crença na vida eterna? Porventura, onde fica o céu? Quem já foi lá para poder afirmar que as ruas são de ouro e os muros: de jaspe e cristais, como diz a Bíblia? Baseado em quê se pode falar dos anjos, com tanta particularidade, como se fosse um irmão biológico? Como aceitar as minúcias descritas sobre a origem do homem e do Universo? Ora, quem viu? Quem estava lá? Como se deu o processo de transmissão desses conhecimentos, já que as linguagens oral e escrita, em relação ao princípio de tudo, e até mesmo da origem do homem, foram criadas “hoje” de manhã, porque ainda “ontem” o homem usava a pedra como faca?

E que Adão é esse, que, de uma grande porção de argila, ganhou forma humana, foi animado e já se levantou falando fluentemente? Afinal, o conhecimento é ou não é histórico? Se a aprendizagem é um produto social, como Adão nasceu falando? E para conversar com quem - já que, no início da sociedade humana, conforme o Criacionismo, antes de Eva, Adão vivia sozinho na Terra?

E o que dizer da “Torre de Babel”, a qual os homens estavam construindo para chegar até o céu, quando momentaneamente, Deus, ofendido com o projeto audacioso dos arquitetos, resolve confundir à comunicação entre os trabalhadores, transformando uma língua em várias? De sorte que, alguém pedia pedra e o companheiro não compreendia nada, pois a língua que lhe era familiar, de repente, se tornou estranha, esquisita; passando milagrosamente a dominar uma outra língua recentemente criada. Assim, ninguém se entendia. E assim também se deu o fim da obra e a origem das línguas. Acredite!

Outra questão: a origem do pecado se dá pelo simples fato do homem ter comido o fruto proibido. Mas se Adão e Eva comeram a fruta que continha o mal, e se o mal era parte da fruta, quem fez a fruta não introduziu nesta o mal? Tem sentido toda a humanidade ser condenada ao fogo do inferno só porque alguém comeu uma fruta? Afinal, se a Deus é atribuído a criação de todas as coisas, até mesmo o mal; como é que Deus, sendo do bem, além de criar o mal, se utiliza deste para formar outras coisas; inclusive, servindo de tentação e cilada para o homem, sua criação? Não terá sido exagero e arbitrariedade, da parte de Deus, determinar tamanha sentença por tão pequena culpa? Como o homem pode ter êxito num mundo do faça o que mando; mas não faça o que faço? Onde fica a ética e o exemplo como referência de boa conduta?

Digamos que o homem tenha falhado! Mas quem fez o homem? Tem lógica, do ser perfeito sair uma obra de imperfeição? Suponhamos que você tenha que escolher um presente com as seguintes opções: um aparelho de som do Paraguai ou um Sony. Qual você escolheria? Evidentemente, o Sony. Mas por quê? Tem ou não tem a ver o produto com o seu produtor? E se o homem é uma obra imperfeita, e se foi Deus quem o fez, ao invés do homem pedir perdão a Deus, não deveria ser o contrário? Não é um contra-senso a criatura pagar pelo erro do criador, já que quem faz algo deve ser responsabilizado pela qualidade do seu feito?

Como explicar as mudanças pelas quais passou a mulher de cálcio (Eva)? Pois sendo feita de uma costela (de Adão), um material tão duro, hoje é tão diferente; chamam-na até de sexo frágil! E o que dizer da mulher de Ló, que, só por ter olhado para trás, ao sair das cidades de Sodoma e Gomorra, desobedecendo à ordem de um certo anjo, virou uma estátua de sal? Que bioquímico explicaria tão surpreendente transformação?

Por fim, que culpa teve Judas em ter traído Jesus, se antes mesmo de nascer, ele já havia sido escolhido para fazê-lo? Qual deve ser a sua condenação, se errou por falta de opção? Somos seres históricos ou “cobaias de Deus” (Cazuza)?

Será que na enciclopédia da fé há respostas convincentes para as indagações humanas? Eu, particularmente, não acredito. Como não acredito na comunhão entre filosofia e religião. São Tomas tentou fazer isto, mas, na verdade, o que ele fez, foi deturpar a obra de Aristóteles. Porque sempre se mentiu em nome da verdade.

Os religiosos nunca foram abertos ao confronto de idéias; e nem têm fundamentação para tal postura. Por isso muitos pagaram caro pela ousadia de si opor à sua visão dogmática de mundo. Que o diga Giordano Bruno, acusado de cometer oito heresias contra a fé catóica, não quis retratar-se perante aquela; preferiu defender suas idéias, alegando não ter de que retratar-se e que nem sabia de que se esperava que retratasse; sendo, então, queimado vivo.

Pois o questionamento é uma pedra no caminho da crença no mundo mágico criacionista. Razão porque a Igreja Católica queimava quase toda produção literária crítica que pudesse despertar às pessoas do “sono” da inocência sobre “a verdade”.

Afinal, que verdade é essa que não pode ser questionada? Será que a verdade tem medo de ser outra coisa? E se é verdade o que se apresenta como tal, e sendo o posicionamento crítico uma busca do desvelamento do real, essa verdade não sairia mais fortalecida se estivesse aberta à discussão? Por exemplo, o que significa dizer: Não discuta, respeite a religião dos outros; senão querer submeter as pessoas à uma atitude passiva de somente ouvir o que está sendo verbalizado? Mas que respeito é esse que é sinônimo de calar? Não será, por acaso, medo de ouvir o que o outro também tem a falar? Ora, se a uva é a uva, e não é outra coisa, por que temer ser elefante? Se a fé tem fundamento, por que protegê-la tanto da razão? Fugir ao debate, não seria, por conta da fragilidade da certeza, uma tática, um ato de defesa? Se a fé não é uma torre de areia, por que não expô-la às intempéries da reflexão crítica? Onde está a força da fé que remove montanhas? Será que Nietzsche está certo, quando diz que a fé não remove montanhas, mas coloca montanhas onde não existe?

O FUTURO DA FÉ

Estamos vivendo momentos de sofisticados avanços tecnológicos e significativas descobertas científicas. A informatização tem aproximado os países; facilitando as pesquisas e a troca de informações entre as pessoas. Na sociedade atual, tudo acontece muito rapidamente. O mundo está se globalizando de forma acelerada, com relação a informação.

Portanto, é uma situação bastante diferente da Idade Média. Quando não havia liberdade de produção do conhecimento, nem de expressão de idéias. Tudo era manipulado e dogmatizado pela Igreja, ficando claro que o sucesso da fé medieval estava relacionado à alienação dos povos. Por isso o Clero não media esforços para afastar as pessoas do refletir filosófico. Era de fundamental importância que a sociedade não tivesse uma consciência própria. Então, tudo que a Igreja pregasse viraria verdade e lei. O questionamento era um privilégio conquistado por poucos e desfrutado secretamente. Pois, afinal de contas, o Clero sabia que a universalização do conhecimento, criticamente elaborado, dificultaria a propagação da religiosidade entre os povos.

O certo é que não há comunhão entre a fé religiosa e o conhecimento científico. E isso é o que tem sido comprovado desde a Idade Média até agora. O crescimento da ciência e do pensamento filosófico tem “exorcizado” o demônio da ignorância dogmática e mudado a compreensão de mundo da sociedade pós-moderna. De forma que, a concepção que no período medieval era a regra, hoje tem uma concorrente de peso.

As conquistas da Ciência, a formação do pensamento crítico e a renovação das gerações estão aniquilando os paradigmas baseados em princípios dogmáticos. Professar a fé, hoje, pode ser visto como uma falha na formação crítica ou, simplesmente, astúcia por parte de pessoas oportunistas que, quando precisam tirar proveito desse ou daquele seguimento, utilizam-se de quaisquer artifícios para conquistar à simpatia do grupo e, se possível, parecer tal e qual um deles, buscando interesses, geralmente, nada agradáveis aos “olhos de Deus”.

Assim sendo, podemos afirmar, até que se prove o contrário, que o fim da religiosidade é só uma questão de tempo, pois o fato desta ser "o ópio do povo" (Karl Marx), está relacionado ao estado agudo de ignorância no qual se encontra a grande maioria da população, que, segundo Kant, ainda não superou o estágio teológico, que é o mais primitivo e atrasado no processo de evolução do pensamento humano; sem ter, ainda, alcançado uma visão filosófico-científica que possibilite um desprendimento das amarras do dogmatismo.

Então, fica patente que, a superação do conhecimento formado pelo senso comum é um processo de mudança de concepção, alem de outros, sobre Deus; que em função de um marketing bem sucedido, atendendo a diversos interesses, até hoje é aceito pela maioria da sociedade como um ser criador, e não como um ser criatura, como na verdade o é. É claro que isto é possível; mas se faz necessário universalizar o conhecimento criticamente elaborado. Senão esse processo ocorrerá de forma lenta e tímida, sendo acessível, principalmente, às populações que têm poder aquisitivo, moram em grandes centros urbanos e têm acesso a boas escolas.

 

Enfim, vale ressaltar que, qualquer tipo de fanatismo é danoso à sociedade, seja ele religioso ou não. Nenhum extremismo é benéfico à boa convivência entre as pessoas. De sorte que, mesmo sendo difícil, é preciso ser tolerante e respeitar o direito de expressar do outro. Desta forma, a liberdade será aprendida e zelosamente praticada, tornado-se desnecessário a mudança pela força bruta; fazendo com que muitos, como tem acontecido, consigam refazer suas idéias; superem o senso comum e conquistem níveis de pensamento que lhes sirvam, não mais como presa fácil em uma sociedade perversa, mas como instrumento de autodefesa e de construção de uma nova ordem social. Portanto, que se aprenda a respeitar o exercício do outro ser isto ou aquilo; pois o que deve ser questionado são as idéias, e não o direito de expressá-las, por mais absurdas que pareçam.

 

Referência bibliográfica:
A Bíblia Sagrada. Traduzida em Português por João Ferreira de Almeida. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1995.

A Bíblia passada a limpo

NA LIVRARIA

O Jesus Histórico
John Dominic Crossan, Imago, 1994

Excavating Jesus
John Dominic Crossan & Jonathan L. Reed,
Harper San Francisco, 2001

Jesus, Uma Biografia Revolucionária
John Dominic Crossan, Imago, 1995

Jesus As a Figure in History
Mark Allan Powell, Westminster John Knox Press, 1998

Um Judeu Marginal
John P. Meier, Imago,1993 (série em quatro volumes)

Bandidos, Profetas e Messias
Movimentos Populares no Tempo de Jesus
Richar A. Horsley, John S. Hanson, Paulus, 1995

Jesus – Esse Grande Desconhecido
Juan Arias, Objetiva, 2001

Cristo – Uma Crise na Vida de Deus
Jack Miles, Companhia das Letras, 2002

Os Homens da Bíblia
André Chouraqui, Companhia das Letras, 1990

História da Vida Privada – Do Império Romano ao Ano Mil
Philippe Ariès e Georges Duby (org.),
Companhia das Letras, 1992

Bíblia de Jerusalém
Paulus, 2002

 


Webmaster: Bergue Rios

 

 

 

 

 

 

 

 

 

&