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ERA UMA VEZ
Ao longo da história dos seres vivos, parece
notório que, dentre as muitas espécies de animais que
desapareceram, a extinção dos dinossauros há 65 milhões de
anos, grupo que habitou a terra por aproximadamente 160
milhões de anos, criou condições para o surgimento e evolução
de outras, particularmente a espécie humana (Homo sapiens);
já que seria pouco provável o homem sobreviver ao mundo dos
dinossauros.
Com
isso, por acaso, de repente, o homem se vê num mundo cheio de
mistérios. Então, depois de começar a perder muito daquele
seu jeitão de “bicho-do-mato”, ou seja, homem selvagem,
ele se pergunta: Quem sou? Por que existo? E qual a razão de
ser disto tudo?!
Estas indagações,
sem respostas, angustiavam demais ao homem. Parecia que o
arquiteto de tamanha façanha não queria manifestar-se, nem
revelar os segredos de sua majestosa obra. Já havia passado
milhares e milhares de anos desde a sua origem. E o silêncio
imperava. Não existiam impressões em rochas, nem, sequer, um
artigo sobre o qual ele pudesse se debruçar e resolver os
problemas da sua inquietação filosófica; o que o deixava
com um sentimento de impotência diante da situação. Viver
parecia simplesmente existir. Tudo era obscuro e sem sentido.
Nada podia ser feito.
Mas,
surpreendentemente, eis que uma voz rompe o silêncio e diz:
Eu sou Deus, o Senhor de todas as coisas, e tudo o que no
mundo há é obra de minhas mãos. Agora, prepare-se, porque
tudo que ao homem convém saber, Eu lhe direi. E o homem não
negligenciou àquela voz. Rapidamente, apanhou pincel e
pergaminho e começou a registrar como se deu a origem de
todas as coisas, inclusive, a história da humanidade,
conforme estava sendo narrado: “No princípio, criou Deus os
céus e a terra. E a terra era sem forma e vazia; e havia
trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia
sobre a face das águas. E disse Deus: Haja luz. E houve
luz(...) Ajuntem-se as águas debaixo dos céus num lugar; e
apareça porção seca(...) E disse Deus: Produza a terra erva
verde(...) Haja luminares na expansão dos céus, para haver
separação entre o dia e a noite(...) E assim foi.
(...)Produzam as águas abundantes répteis de alma
vivente(...) Produza a terra alma vivente conforme a sua espécie(...)
E viu Deus que era bom. E disse Deus: Façamos o homem à
nossa imagem, conforme a nossa semelhança(...) E viu Deus
tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom; e foi a
tarde e a manhã: o dia sexto(...) (Gênesis: cap. 1)”
Ora,
completadas 144 horas ininterruptas de revelação, o homem
estava tão exausto, que desmaiou de sono e fraqueza, e só
acordou seis dias depois. Quando, então, refez o ânimo e à
lucidez, e, como o verde que brota das cinzas, pode perceber
quão arduamente tinha exercido o seu ofício de escriba,
ultimamente. Pois havia uma grande quantidade de pergaminhos
manuscritos. Os quais, muito tempo depois, foram reeditados em
papel; reunindo mais de sessenta livros, em volume único,
denominado Bíblia.
Pronto!
Agora o homem não precisava mais se atribular com os mistérios
da vida nem do cosmo. Tudo que ele precisasse saber, era só
recorrer àquele manual, e todas as explicações seriam
obtidas. O livro falava sobre tudo. Era uma novidade fantástica!
Ninguém tinha visto algo igual, até então. Poder-se-ia
considerar um marco histórico; e com um detalhe: era uma obra
perfeita. Uma vez que não se poderia esperar o contrário de
quem a fez. O autor de tantas obras fascinantes não iria
decepcionar na simples produção de um livro.
Bem,
é claro que não se deve desprezar a possibilidade de o
escriba ter deturpado, aqui e ali, o sentido de alguma frase,
já que, conforme o dito popular, todo tradutor é um traidor.
O
certo é que a leitura desse livro se tornou um hábito,
criando regras sociais rigorosas. Ninguém se interessava mais
por compreender os fenômenos da natureza, ou outra questão
qualquer, numa abordagem que fosse diferente do seu conteúdo.
Saber quem fez e como fez, era o bastante. Imagine se alguém
teria atrevimento de perguntar como foi formada a matéria, já
que antes o universo era um abismo vazio! Ou mais, se somente
havia o nada absoluto, e o nada é o não ser, sem consciência
ou poder de formar algo, como, abruptamente, do nada infinito
surge "um ser" que, somente usando do recurso da
palavra (faça-se isto ou aquilo), constrói toda esta imensidão
de mundo em apenas seis dias? Ah, mas isto é muita audácia,
é querer demais, diria alguém. Ora, "Ele" além de
ter feito tudo sozinho, ainda querem satisfação! Tenha paciência!
Mas,
enfim, a Bíblia norteava à vida das pessoas e, como não
haveria de ser diferente, o homem continuava a examinar às
"escrituras", quando chegou num trecho que lhe
chamou atenção. Havia um acorde dissonante. Um, digamos
assim, pequeno problema. Era um daqueles tipos de assuntos que
as pessoas geralmente gostam de bisbilhotar: o primeiro casal
da espécie humana (Adão e Eva) tinha cometido um deslize
muito grave. E isso tudo iria trazer sérias conseqüências
para a humanidade.
Veja
que interessante: estavam Adão e Eva passeando no paraíso
quando se depararam com uma árvore cujos frutos lhes
pareceram muito atrativos; só que antes de prová-los, Deus
intervém e determina: “Do fruto desta árvore não
comereis”. Adão ficou aborrecido, mas superou a questão.
Eva, todavia, ficou foi mais curiosa e tentou convencer Adão
a não levar muito a sério àquela ordem: Ah, benzinho, não
fique aborrecido, o que há de errado em se comer uma fruta?
Vamos fazer o seguinte: eu vou lá, tiro a fruta, a gente come
e Ele nem vai se importar com isso. Só estava mal humorado.
O
certo é que, depois de ter sido colocado num lugar muito
bonito (o paraíso), onde se podia comer de tudo ou, para ser
mais preciso, de quase tudo, o casal não resistiu à tentação
e comeu do fruto de uma árvore que não se devia comer,
segundo Deus. Caindo, assim, num ato de desobediência lastimável.
Pois a tal fruta tinha um poder de despertar, no homem, uma
maneira de ver as coisas (e como!) nada agradável aos olhos
de Deus, fazendo com que o "Criador" se afastasse
desse e retirasse toda a sua regalia de "jardim cinco
estrelas", transformando-o num peregrino sem rumo.
E
agora? Longe de Deus, expulso do "paraíso", amaldiçoado
e sem o conforto de antes, o que fazer? O homem busca
imaginar-se na situação de Adão e Eva.
Acontece
que, no processo constante de busca de familiarização com o
conteúdo do livro, o homem chegou a uma compreensão nada
agradável às suas pretensões. Ele entendeu que, enquanto não
se resolver o problema do pecado, por natureza, todo homem é
pecador. Uma espécie de herança maldita que passa de geração
a geração. Nada diferente da situação anterior: cada homem
continua sendo um Adão e cada mulher continua sendo uma Eva.
O que, na verdade, é muito pior, pois, além dos pecados que
já existiam, o homem criou muitos outros, tornando-se mais
pecador ainda. Isto sem contar àqueles que perderam a noção
do perigo e fizeram do próprio pecado uma profissão.
Mas
que situação, pensa o homem? Teria sido melhor não ter lido
nada disso; ao invés de melhorar as coisas, ficou muito pior.
Então
o homem ficou muito mais atordoado; não sabia como sair dessa
situação-problema. Até que algo, como que uma voz interior,
falou a sua mente: Calma! Não há motivos para desespero. Você
descobriu que, por herança ou por ofício, você também é
um pecador. Mas paciência; pecou, pecou; não tem mais jeito.
A questão agora é: o que fazer para limpar a sua ficha lá
em cima? Sim! Pois tudo que se faz aqui é registrado lá em
cima. Portanto, o homem pensou, pensou... e subitamente lhe
veio uma idéia: Ah! “o livro”! Quem sabe, mais adiante,
ele não aponta uma saída? Não é possível que ele seja só
“dedo-duro”; sirva só para apontar nossos erros.
Assim
ele passava dias e mais dias procurando trechos que
esclarecessem às suas dúvidas e norteassem o seu caminho. Até
que, depois de muito tempo, numa busca incessante, pois o
livro parecia ter sido feito só para condenar às pessoas, o
homem se depara com uma passagem que lhe traz um certo alento,
pois diz respeito a sua situação. Então ele lê: “Eis que
o homem pecou e destituído está da “gloria de Deus”. E
leu mais: “Maldita é a terra por causa do pecado”. Ah,
mas que palavra mais “dura”, pensou. Isto não resolve o
meu problema, só piora as coisas. Entretanto veja só o que
ele acha em outro trecho adiante: “Caso o homem se arrependa
de todo o mal que fez e cumpra algumas exigências, o Senhor
tirará todo castigo, devolverá tudo que ele perdeu,
inclusive, a vida eterna”.
Que
maravilha! Está solucionado o problema. Agora o homem já
sabe quem é, de onde veio, no que falhou e como corrigir o
seu erro. É somente seguir estas orientações, e pronto!
Fica tudo quite com Deus e tudo volta a ser como antes.
Finalmente,
o homem se empolga, pois acha que encontrou o caminho. Mas, na
verdade, isso é apenas a ponta do barbante; uma peça do
quebra cabeça. Mais adiante, talvez fique gélido, sem graça
ou, quem sabe, amaldiçoe o seu nascimento, quando souber o
que terá de fazer, de fato, para alcançar o tão desejado
perdão do Bondoso Criador. Visto que Este está cobrando
tanto pela maçã que Adão e Eva comeram no Jardim do Éden
(se é que comeram toda) que, nem colhendo todos os frutos do
nosso planeta daria para pagar tamanha dívida. E olha que,
por sorte nossa, o casal não quebrou nenhum galho da tal
planta!
Mas,
fazer o quê? Deus não aceita argumentos. De nada adianta
dizer que sua sentença foi arbitrária. Nem que o Seu
badalado livre-arbítrio é tendencioso. Pois só há dois
caminhos: céu ou inferno. E ninguém, de são juízo, quer ir
para o inferno, porque lá a temperatura é muito alta e, além
de não ter água - o que já seria suficiente para
inviabilizar a agricultura - a ciência ainda não inventou
nenhum tipo de roupa que nos proteja do ardor do fogo.
De
sorte que, embora os conceitos de justiça e amor de Deus nos
pareçam contraditórios e inadequados à nossa realidade; não
tem jeito; está escrito que, somente submetendo-se à vontade
Dele, o homem terá a salvação eterna. Então o homem
lamenta: Mas que infelicidade a nossa, antes tivesse contado
com o livre-arbítrio do urubu, que, mesmo depois de ter
descoberto o jogo sujo do sapo, exigiu somente uma coisa
desse: Quer que eu lhe jogue na água ou no fogo?
Mas
não há escolha. Deus quer se divertir e quer espetáculo.
Ora, que as cortinas permaneçam abertas e as cobaias, em
cena. A Bíblia diz que o reino de Deus é tomado à força.
Portanto, não é uma doação generosa; é algo a ser
conquistado. É um jogo com platéia, inimigo e tudo... Requer
estratégia e sacrifício; pois, além do caminho ser
estreito, poucos serão escolhidos. A salvação é a meta,
mas o pódio não cabe todos.
Assim
o homem descobre que precisa aprender mais coisas e que não
está tão informado como pensava. Então ele segue em frente,
perseguindo o seu objetivo, até que encontra algo novo: vários
profetas falando sobre à vinda de um certo Messias (Jesus),
que nascerá em Israel, será traído por um de seus discípulos
(Judas) e sob gozação, humilhação, carregará uma cruz de
madeira pelas ruas de Jerusalém e, nela, será crucificado e
morto. Tudo por amor à humanidade. Só para salvar o homem do
pecado e da ira de Deus.
Ah,
mas que frustração, além de ser privado de tantas coisas
consideradas pecados, ou seja, que alguém considerou pecado,
depois de morrer, ainda vou ter que esperar todo esse processo
acabar? Mas que Deus burocrático! Faz o mundo em seis dias e,
só para conceder um perdão, cria toda uma dificuldade, uma
dramatização! Para que fazer Jesus passar por todo esse
ritual de dor e morte, e isso ainda é só uma parte desse
“genial” plano de salvação do homem? Não seria mais prático
perdoar, e pronto?!
E,
afinal, que “amor de pai” é esse... que, podendo resolver
um problema de várias maneiras, escolhe uma, onde, além de
oferecer o seu único filho em sacrifício – como ovelha que
vai ao matadouro –, fica, de camarote, assistindo o seu
rebento ser tripudiado, espancado e morto, como se fosse um
brinquedo qualquer, entregue à diversão macabra de pessoas
brutais? Ora, qual é o pai, numa situação como essa, caso não
houvesse outra alternativa, não arrebataria a cruz das mãos
do filho e a levaria com bravura, sofrendo em seu lugar?!
A
FÉ NA CONTRAMÃO DA RAZÃO
O
tempo passava e, assim, o homem levava uma vida simples,
trabalhando arduamente para o seu sustento, acreditando nas
promessas de um mundo melhor. Embora, nos momentos de folga,
ele se entregasse a certas vadiagens menos monótonas e mais
suaves que, depois de nove meses, resultavam sempre no milagre
da criação.
O
certo é que o “crescei e multiplicai” foi cumprido a
risca, promovendo um aumento muito grande da população. Fato
que desencadeou a necessidade de se produzir mais bens de
consumo, melhores instrumentos de trabalho, técnicas de produção
e a capacidade de dar respostas cada vez mais complexas e
eficientes aos problemas sociais emergentes. Visto que os
antigos paradigmas tornavam-se obsoletos frente às
necessidades de cada nova realidade vivenciada. Exigindo da
sociedade um conhecimento qualitativamente mais aprimorado.
Assim,
se tornava uma verdadeira bola de neve; quanto mais o homem
interagia com o seu meio, maiores eram os desafios
enfrentados. De forma que, quanto mais ele respondia às
dificuldades encontradas, mais diversificadas e profundas
ficavam as necessidades de responder aos problemas. Parecia um
jogo infindável. No entanto, o homem se sentia cada vez mais
atraído e tentado a jogar. Já se tornava um vício
prazeroso, uma mania. Embora ele não soubesse das conseqüências
marcantes que esse seu tipo de lazer iria trazer. Motivado
pela curiosidade e necessidade de aprender, criar, indagar e
responder; agia como se fosse uma criança incansável. Desta
forma, a sociedade seguia dialeticamente o seu rumo histórico.
Até
que, em 1564 nasce, dentre muitos, o menino Galileuzinho, que,
entre outras coisas, desde cedo, tinha desenvolvido o espírito
de observar as coisas e criar seus próprios brinquedos. Só
que o mundo lúdico desse menino tinha algo diferente dos
demais coleguinhas. É que ele, embora pequeno, pensava grande
e queria enxergar coisas distantes. Então construía seus
instrumentos e, imediatamente, ia brincar de vasculhar o céu.
É claro que ele fazia isso escondido. Pois, além de está
infringindo a lei do limite de exploração do espaço aéreo
permitido pela “Santa Inquisição”, ele sabia que o mundo
dos adultos era finito; e, talvez, não compreendessem àquela
traquinagem de menino procurando coisas que nem gente grande
admitia existir.
Enfim,
todo esse processo levava o homem à satisfação de dominar o
saber, atender às necessidades sociais e alimentar a fome da
inquietante curiosidade humana.
Assim,
a busca constante, a vontade veemente de dominar o
desconhecido fez com que o homem se aprimorasse tanto na arte
de pensar que, além de querer expandir mais o seu campo de
conhecimento, ele resolveu fazer uma reflexão crítica sobre
todo saber até então acumulado. Quem sabe, uma viagem
epistemológica.
Ora,
esse novo exercício de pensar o já pensado; de reconstruir o
caminho, fez o homem se deparar com verdades que estavam em
contradição com novas descobertas científicas.
Então
o homem refletiu: Se a Bíblia é a “boca” de Deus falando
aos homens, e sendo este um ser perfeito, por que ela afirma
coisas que não correspondem à realidade? Será que Deus
falhou ou mentiu? Existe de fato um fundamento nesta mensagem?
Ou estamos como cegos, envoltos numa nuvem de trevas, esse
tempo todo? Afinal, como compreender uma verdade que, de
repente, é uma mentira?
Parecia
que o germe da razão tinha entrado em ação. O homem passou
a questionar e duvidar de tudo. O espírito cartesiano estava
se alastrando por toda a terra. O atrito entre fé e razão
era inevitável. Pois o homem estava se sentindo traído e
subestimado, tanto por Deus, como pelos seus representantes
terrestres.
Por
esse motivo, ele procurou elaborar uma maneira mais segura de
construir o conhecimento. Uma forma cuidadosa, metódica. Não
queria mais intermediários nesse processo. Pois, se a mente
pode conhecer, o homem pode pensar por conta própria. Ele é
livre e capaz de compreender o mundo.
Essa
nova postura do homem frente à realidade, além de questionar
a teoria criacionista, contestou o poder da Igreja Católica e
criou uma crise que abalou as estruturas de uma concepção
religiosa que reinou soberana por toda Idade Média, no mundo
ocidental.
Muitas
pessoas não estavam entendendo mais nada. A confusão era
geral. O que para uns era visto como uma revolução
intelectual, uma nova fase da história; para outros, não
passava de um inferno astral. Ninguém tinha certeza de mais
nada. Nem onde ficavam as coisas do cosmo. Pois, além de
arredondarem a Terra, levaram-na para um lugar bem distante do
centro do Universo. Derrubaram os muros que separavam o homem
do infinito e, como se não bastasse, entulharam todo o abismo
que contornava a Terra.
A
sociedade tinha pressa em passar a limpo toda aquela página
manchada da história. Não bastava iluminar às trevas; mas
aniquilá-la. Fundir os alicerces da ilusão desmedida e
trazer o homem para o mundo real, libertando-o do jugo da
ditadura religiosa, resgatando-o de um período em que, a
Igreja Católica foi o diabo, em nome de Deus; a ditadura, em
nome da liberdade; e pregou a salvação e a vida eterna,
matando e derramando sangue de pessoas; principalmente, as que
tinham coragem de questionar as verdades que lhes eram
impostas, ameaçando descosturar o tecido das cortinas do
quintal do céu da realidade divina.
Não
é querer ser positivista; mas aquilo que não pode ser
experimentado pela razão, nem provado pela ciência, também
não deve ser pregado como verdade; pois não há como se
convencer alguém acerca de uma percepção cuja veracidade
dos fatos não tenha passado por um processo peculiar de
compreensão da mente criticamente desenvolvida. Tudo que, a
priori, é desconhecido, não deve ser negado, nem afirmado,
nem aceito. Quando não há elementos suficientes para se
sustentar uma idéia, o mais coerente é duvidar e investigar
os princípios que a fundamenta.
Portanto,
dizer que algo é verdadeiro só porque está escrito, não
significa nada; uma vez que os mitos, as lendas e as promessas
dos políticos... quase tudo está escrito.
Então
quais são os elementos que dão consistência, por exemplo,
à crença na vida eterna? Porventura, onde fica o céu? Quem
já foi lá para poder afirmar que as ruas são de ouro e os
muros: de jaspe e cristais, como diz a Bíblia? Baseado em quê
se pode falar dos anjos, com tanta particularidade, como se
fosse um irmão biológico? Como aceitar as minúcias
descritas sobre a origem do homem e do Universo? Ora, quem
viu? Quem estava lá? Como se deu o processo de transmissão
desses conhecimentos, já que as linguagens oral e escrita, em
relação ao princípio de tudo, e até mesmo da origem do
homem, foram criadas “hoje” de manhã, porque ainda
“ontem” o homem usava a pedra como faca?
E
que Adão é esse, que, de uma grande porção de argila,
ganhou forma humana, foi animado e já se levantou falando
fluentemente? Afinal, o conhecimento é ou não é histórico?
Se a aprendizagem é um produto social, como Adão nasceu
falando? E para conversar com quem - já que, no início da
sociedade humana, conforme o Criacionismo, antes de Eva, Adão
vivia sozinho na Terra?
E
o que dizer da “Torre de Babel”, a qual os homens estavam
construindo para chegar até o céu, quando momentaneamente,
Deus, ofendido com o projeto audacioso dos arquitetos, resolve
confundir à comunicação entre os trabalhadores,
transformando uma língua em várias? De sorte que, alguém
pedia pedra e o companheiro não compreendia nada, pois a língua
que lhe era familiar, de repente, se tornou estranha,
esquisita; passando milagrosamente a dominar uma outra língua
recentemente criada. Assim, ninguém se entendia. E assim também
se deu o fim da obra e a origem das línguas. Acredite!
Outra
questão: a origem do pecado se dá pelo simples fato do homem
ter comido o fruto proibido. Mas se Adão e Eva comeram a
fruta que continha o mal, e se o mal era parte da fruta, quem
fez a fruta não introduziu nesta o mal? Tem sentido toda a
humanidade ser condenada ao fogo do inferno só porque alguém
comeu uma fruta? Afinal, se a Deus é atribuído a criação
de todas as coisas, até mesmo o mal; como é que Deus, sendo
do bem, além de criar o mal, se utiliza deste para formar
outras coisas; inclusive, servindo de tentação e cilada para
o homem, sua criação? Não terá sido exagero e
arbitrariedade, da parte de Deus, determinar tamanha sentença
por tão pequena culpa? Como o homem pode ter êxito num mundo
do faça o que mando; mas não faça o que faço? Onde fica a
ética e o exemplo como referência de boa conduta?
Digamos
que o homem tenha falhado! Mas quem fez o homem? Tem lógica,
do ser perfeito sair uma obra de imperfeição? Suponhamos que
você tenha que escolher um presente com as seguintes opções:
um aparelho de som do Paraguai ou um Sony. Qual você
escolheria? Evidentemente, o Sony. Mas por quê? Tem ou não
tem a ver o produto com o seu produtor? E se o homem é uma
obra imperfeita, e se foi Deus quem o fez, ao invés do homem
pedir perdão a Deus, não deveria ser o contrário? Não é
um contra-senso a criatura pagar pelo erro do criador, já que
quem faz algo deve ser responsabilizado pela qualidade do seu
feito?
Como
explicar as mudanças pelas quais passou a mulher de cálcio
(Eva)? Pois sendo feita de uma costela (de Adão), um material
tão duro, hoje é tão diferente; chamam-na até de sexo frágil!
E o que dizer da mulher de Ló, que, só por ter olhado para
trás, ao sair das cidades de Sodoma e Gomorra, desobedecendo
à ordem de um certo anjo, virou uma estátua de sal? Que
bioquímico explicaria tão surpreendente transformação?
Por
fim, que culpa teve Judas em ter traído Jesus, se antes mesmo
de nascer, ele já havia sido escolhido para fazê-lo? Qual
deve ser a sua condenação, se errou por falta de opção?
Somos seres históricos ou “cobaias de Deus” (Cazuza)?
Será
que na enciclopédia da fé há respostas convincentes para as
indagações humanas? Eu, particularmente, não acredito. Como
não acredito na comunhão entre filosofia e religião. São
Tomas tentou fazer isto, mas, na verdade, o que ele fez, foi
deturpar a obra de Aristóteles. Porque sempre se mentiu em
nome da verdade.
Os
religiosos nunca foram abertos ao confronto de idéias; e nem
têm fundamentação para tal postura. Por isso muitos pagaram
caro pela ousadia de si opor à sua visão dogmática de
mundo. Que o diga Giordano Bruno, acusado de cometer oito
heresias contra a fé catóica, não quis retratar-se perante
aquela; preferiu defender suas idéias, alegando não ter de
que retratar-se e que nem sabia de que se esperava que
retratasse; sendo, então, queimado vivo.
Pois
o questionamento é uma pedra no caminho da crença no mundo mágico
criacionista. Razão porque a Igreja Católica queimava quase
toda produção literária crítica que pudesse despertar às
pessoas do “sono” da inocência sobre “a verdade”.
Afinal,
que verdade é essa que não pode ser questionada? Será que a
verdade tem medo de ser outra coisa? E se é verdade o que se
apresenta como tal, e sendo o posicionamento crítico uma
busca do desvelamento do real, essa verdade não sairia mais
fortalecida se estivesse aberta à discussão? Por exemplo, o
que significa dizer: Não discuta, respeite a religião dos
outros; senão querer submeter as pessoas à uma atitude
passiva de somente ouvir o que está sendo verbalizado? Mas
que respeito é esse que é sinônimo de calar? Não será,
por acaso, medo de ouvir o que o outro também tem a falar?
Ora, se a uva é a uva, e não é outra coisa, por que temer
ser elefante? Se a fé tem fundamento, por que protegê-la
tanto da razão? Fugir ao debate, não seria, por conta da
fragilidade da certeza, uma tática, um ato de defesa? Se a fé
não é uma torre de areia, por que não expô-la às intempéries
da reflexão crítica? Onde está a força da fé que remove
montanhas? Será que Nietzsche está certo, quando diz que a fé
não remove montanhas, mas coloca montanhas onde não existe?
O
FUTURO DA FÉ
Estamos
vivendo momentos de sofisticados avanços tecnológicos e
significativas descobertas científicas. A informatização
tem aproximado os países; facilitando as pesquisas e a troca
de informações entre as pessoas. Na sociedade atual, tudo
acontece muito rapidamente. O mundo está se globalizando de
forma acelerada, com relação a informação.
Portanto,
é uma situação bastante diferente da Idade Média. Quando não
havia liberdade de produção do conhecimento, nem de expressão
de idéias. Tudo era manipulado e dogmatizado pela Igreja,
ficando claro que o sucesso da fé medieval estava relacionado
à alienação dos povos. Por isso o Clero não media esforços
para afastar as pessoas do refletir filosófico. Era de
fundamental importância que a sociedade não tivesse uma
consciência própria. Então, tudo que a Igreja pregasse
viraria verdade e lei. O questionamento era um privilégio
conquistado por poucos e desfrutado secretamente. Pois, afinal
de contas, o Clero sabia que a universalização do
conhecimento, criticamente elaborado, dificultaria a propagação
da religiosidade entre os povos.
O
certo é que não há comunhão entre a fé religiosa e o
conhecimento científico. E isso é o que tem sido comprovado
desde a Idade Média até agora. O crescimento da ciência e
do pensamento filosófico tem “exorcizado” o demônio da
ignorância dogmática e mudado a compreensão de mundo da
sociedade pós-moderna. De forma que, a concepção que no período
medieval era a regra, hoje tem uma concorrente de peso.
As
conquistas da Ciência, a formação do pensamento crítico e
a renovação das gerações estão aniquilando os paradigmas
baseados em princípios dogmáticos. Professar a fé, hoje,
pode ser visto como uma falha na formação crítica ou,
simplesmente, astúcia por parte de pessoas oportunistas que,
quando precisam tirar proveito desse ou daquele seguimento,
utilizam-se de quaisquer artifícios para conquistar à
simpatia do grupo e, se possível, parecer tal e qual um
deles, buscando interesses, geralmente, nada agradáveis aos
“olhos de Deus”.
Assim
sendo, podemos afirmar, até que se prove o contrário, que o
fim da religiosidade é só uma questão de tempo, pois o fato
desta ser "o ópio do povo" (Karl Marx), está
relacionado ao estado agudo de ignorância no qual se encontra
a grande maioria da população, que, segundo Kant, ainda não
superou o estágio teológico, que é o mais primitivo e
atrasado no processo de evolução do pensamento humano; sem
ter, ainda, alcançado uma visão filosófico-científica que
possibilite um desprendimento das amarras do dogmatismo.
Então, fica patente que, a superação do
conhecimento formado pelo senso comum é um processo de mudança
de concepção, alem de outros, sobre Deus; que em função de um
marketing bem sucedido, atendendo a diversos interesses, até
hoje é aceito pela maioria da sociedade como um ser criador, e
não como um ser criatura, como na verdade o é. É claro que
isto é possível; mas se faz necessário universalizar o
conhecimento criticamente elaborado. Senão esse processo
ocorrerá de forma lenta e tímida, sendo acessível,
principalmente, às populações que têm poder aquisitivo, moram
em grandes centros urbanos e têm acesso a boas escolas.
Enfim, vale ressaltar que, qualquer tipo de
fanatismo é danoso à sociedade, seja ele religioso ou não.
Nenhum extremismo é benéfico à boa convivência entre as
pessoas. De sorte que, mesmo sendo difícil, é preciso ser
tolerante e respeitar o direito de expressar do outro. Desta
forma, a liberdade será aprendida e zelosamente praticada,
tornado-se desnecessário a mudança pela força bruta; fazendo
com que muitos, como tem acontecido, consigam refazer suas
idéias; superem o senso comum e conquistem níveis de
pensamento que lhes sirvam, não mais como presa fácil em uma
sociedade perversa, mas como instrumento de autodefesa e de
construção de uma nova ordem social. Portanto, que se aprenda
a respeitar o exercício do outro ser isto ou aquilo; pois o
que deve ser questionado são as idéias, e não o direito de
expressá-las, por mais absurdas que pareçam.
Referência
bibliográfica:
A Bíblia Sagrada. Traduzida em Português por João Ferreira de
Almeida. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1995.
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