As Tecnologias IntelectuaisPierre Levy*Uma tecnologia intelectual não precisa ser efetivamente utilizada por uma maioria estatística de indivíduos para ser considerada dominante. Até o começo do século XIX, a maior parte dos franceses não sabia ler, mas mesmo assim a escrita era havia muito a tecnologia intelectual motriz no plano tanto imaginário como religioso, científico ou estético. Durante séculos a verdade foi escrita, bem como o destino. O mundo desenrolava uma imensa página coberta de sinais a serem interpretados. Apesar de ser o privilégio de uma exclusiva casta de letrados, o prisma da escrita determinou a visão do mundo de muitas civilizações desde a mais alta Antigüidade. O etnólogo Jack Goody evidenciou o nascimento, com a escrita, de um certo tipo de racionalidade A disposição de sinais sob a forma de quadros, a visão sinóptica, gera uma exigência nova de lógica e simetria. Posto no papel, separado do fluxo efêmero da palavra, o discurso é objetivado. Doravante pode exercer-se o espírito crítico. Destacam-se a criação e a cópia, o comentário e o relato. Acumulam-se os textos, pouco a pouco emerge uma temporalidade linear, histórica. Mais adiante, o alfabeto torna costumeira a abstração de uma ordem seqüencial e combinatória. A imprensa, por fim, autoriza o "livre exame" dos textos, alivia das mentes o enorme fardo da memória e da tradição, libera o caminho para a observação da natureza. Pode-se imaginar, sem a imprensa, a revolução científica do século XVII, as Luzes, o nascimento do imenso movimento que arrancará o Ocidente, e a seguir toda a Terra, do mundo tradicional?
Assim como a escrita, a informática deve ser analisada como tecnologia intelectual. Os microprocessadores são objetos, coisas fabricadas, com um peso, um preço, um aspecto visível. Os computadores são máquinas que podem ser transportadas, modificadas, programadas, destruídas. A informática expõe suas ferramentas: seres materiais, estruturas lógicas ou linguagens formais, pacientemente construídos. Esses instrumentos podem ser dissecados, examinados, sondados, são objetos de experiência. É essa a dimensão empírica da informática.
Mas essas máquinas de calcular, essas telas, esses programas não são apenas objetos de experiência. Enquanto tecnologia intelectual, contribuem para determinar o modo de percepção e intelecção pelo qual conhecemos os objetos. Fornecem modelos teóricos para as nossas tentativas de conceber, racionalmente, a realidade. Enquanto interfaces, por seu intermédio é que agimos, por eles é que recebemos de retorno a informação sobre os resultados de nossas ações. Os sistemas de processamento da informação efetuam a mediação prática de nossas interações com o universo. Tanto óculos como espetáculo, nova pele que rege nossas relações com o ambiente, a vasta rede de processamento e circulação da informação que brota e se ramifica a cada dia esboça pouco a pouco a figura de um real sem precedente. É essa a dimensão transcendental da informática.A mediação digital
Uma membrana de cálculo e informação codificada estende-se entre o corpo dos homens e o mundo técnico. Mídia dos mídias, tecnologia de controle das técnicas, a informática condiciona doravante a possibilidade do tecnocosmo.
Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, uma parte crescente da população ativa dos países desenvolvidos trabalha no setor da gestão e dos serviços. A maioria de nós produz, transforma ou propaga informação. A disseminação das máquinas lógicas na indústria modifica o tipo de competência cognitiva exigida dos operários (ou "operadores") e dos agentes de manutenção. Estes são levados a recorrer a modos de pensamento abstratos para dominarem operações formalizadas num ambiente de códigos e mensagens. Assim, até na esfera da produção dos objetos, o essencial do trabalho humano consiste em criar signos. A comunicação substitui o labor, o dispêndio de energia física. Segunda mutação: um novo gênero de comunicação está suplantando o anterior. A supervisão dos processos quase deixou de ser direta para ser feita através de sensores. O contato com a matéria passa por indicadores codificados, números, sinais em telas. O comando e o controle das máquinas não dependem mais do movimento da mão ou do envolvimento do corpo, mas sim de uma precisa combinação de símbolos. Com a mediação digital, a primazia da interação sensório-motriz deixa o lugar à do sensório-simbólico, até a pura abstração codificada.
O sensor está destronando os órgãos dos sentidos, o acionador torna inúteis os músculos. O corpo sensório-motor está quase que totalmente devolvido à esfera privada, ao desporte, ao lazer, ao jogo. A intimidade com o concreto sensível está tornando-se um luxo.
Já ao aparecer, a espécie humana afastou-se do dado natural bruto graças à linguagem e à técnica. A agricultura, a domesticação dos animais representam uma nova etapa na constituição de um universo humano artificial. A produção desse mundo próprio acelera-se com a entrada na história através da urbanização e a escrita. A multiplicação dos meios mecânicos de transporte e a constituição de uma imensa rede de comunicação modificaram totalmente a nossa relação com o espaço. O tempo social síncrono do trabalho assalariado, dos relógios, das máquinas e das comunicações mundiais redefiniu a nossa temporalidade vivida. Quase todos os objetos e as paisagens de nossa vida quotidiana são produtos da indústria humana. Habitamos o tecnocosmo, sua água, seu ar e sua luz, seu ritmo e seu rumor. Ora, o armazenamento, a transmissão e o processamento automático das informações digitais interpõem uma mediação entre os sujeitos humanos e seu tecnocosmo.
Computadores controlam o tráfego aéreo, as redes ferroviárias, os vôos espaciais, pilotam uma multidão de máquinas variadas. Controlam a distribuição da eletricidade, do calor, da água, comandam o funcionamento dos robôs, das máquinas-ferramentas e das linhas de produção. Programas organizam o trânsito urbano e regem as comutações das redes telefônicas. Desde a vigilância interna dos prédios até a condução do funcionamento das centrais nucleares, por toda a parte os computadores coordenam, harmonizam, guiam, regulam e administram as redes, os processos e complexos técnicos sobre os quais o tecnocosmo se apóia. O acesso direto às coisas se afasta em mais um grau.
A mediação digital remodela certas atividades cognitivas fundamentais que envolvem a linguagem, a sensibilidade, o conhecimento e a imaginação inventiva. A escrita, a leitura, a escuta, o jogo e a composição musical, a visão e a elaboração das imagens, a concepção, a perícia, o ensino e o aprendizado, reestruturados por dispositivos técnicos inéditos, estão ingressando em novas configurações sociais.
Escrever
Os programas de edição de texto permitem suprimir com facilidade uma letra, uma palavra, um parágrafo, e fazê-los reaparecer aqui ou acolá, com a paginação se reorganizando automaticamente. As adições, correções e modificações não exigem mais reescrever toda uma página ou até um texto inteiro, ou ainda o laborioso manuseio de cola e tesoura. Mal a alteração foi feita e a apresentação fica clara. Torna-se muito fácil alterar as margens, o espaçamento entre as linhas, a divisão em parágrafos, a tipografia, todos os elementos que contribuem para a valoração de um texto. Graças às capacidades de armazenamento e restituição da máquina, podem-se facilmente reaproveitar frases, trechos de texto ou parágrafos inteiros em contextos diferentes, com a simples mudança de algumas palavras para evitar uma total reiteração. Essas novas possibilidades tendem a acentuar a dimensão "matéria-prima" do texto. Este é cortado, trabalhado, reorganizado, reutilizado como um material bruto, e a escrita se desloca para a vertente da transformação desse mesmo material, desprezando um pouco a vertente da extração.O destino de recombinação que aguarda o texto, porém, repercute sobre a primeira escrita, sua produção originária: para sua melhor transformação, reutilização, o texto deve ser modular. Os parágrafos, ou melhor, as frases, tendem a se auto-sustentar, a não supor o que as antecede ou segue. A escrita deve ser precisa, rápida, direta, curta. A sintaxe e a arquitetura lógica não podem obstaculizar o rearranjo das frases, nem a permutação das palavras. Softwares de verificação ortográfica assistida retificam a ortografia, a gramática e até o estilo dos textos no sentido que acaba de ser indicado. Esses programas, por` exemplo, calculam o comprimento médio das frases e das palavras para deduzir o ` índice de legibilidade" do texto. Os trechos cujo índice é por demais baixo são remetidos ao autor ou submetidos a um operador especializado. A tendência à modularidade e à simplicidade lógica é acentuada pelo desenvolvimento da tradução assistida. Não existe programa capaz de verter qualquer texto de uma língua natural para outra, mas, num campo semântico restrito e sob a condição de tratar previamente o original para eliminar todas suas ambigüidades, os resultados da tradução automática são bastante bons. A etapa da pré-edição pode ser eliminada, fornecendo-se aos autores indicações que visam a evitar quaisquer formas ambíguas que`requerem uma compreensão do texto para serem precisadas. Existe, pois, uma escrita para o processamento" que atende a determinadas obrigações semânticas e estilísticas.
A edição de texto permite a atualização e personalização de um texto padrão com a simples articulação com um arquivo automatizado e um calendário. Essa função é muito utilizada para aplicações admínistrativas e comerciais. O princípio do texto com geometria variável pode ser estendido. Imaginemos textos plásticos automaticamente reconstituídos a partir de simples alterações de variáveis predefinidas de tempo, estilo ou vocabulário. Pode-se também conceber uma seqüência coerente de frases onde cada uma delas é função da anterior. Alterar a primeira frase equivaleria a transformar a totalidade do texto com uma reação em cadeia. Não se trataria mais de produzir um objeto definido, mas sim um sistema de transformações capaz de uma quantidade indefinida de resultados. Desde o acabamento artesanal da folha até a concepção do esquema funcional da árvore, o autor de amanhã criará matrizes de textos. A combinatória é a sua forma mais simples. A partir de regras sintáticas e elementos lexicais ou textuais recombináveis, é permitido erar um número astronômico de seqüências de palavras diferentes. Raymond Queneau e seus amigos do "Ouvroir de literatura potencial" (Oulipo) têm dado exemplos desse procedimento.
Hoje a informática autoriza pesquisas mais elaboradas ainda não exploradas. A leitura interativa na tela de um monitor renova mais particularmente os dados do problema. Os hipertextos (matrizes de textos potenciais) escritos para a leitura interativa apresentam-se como sistemas de múltiplos percursos. Em 1987, o leitor só pode intervir com a escolha de entroncamentos dentro do relato: Mas sistemas capazes de dialogar com o leitor e colocando à sua disposição múltiplas ferramentas para trabalhar sobre um proposição inicial ou uma coleção de dados são concebíveis graças aos avanços da inteligência artificial e dos sistemas expertos. Assim a diferenciação entre autor e leitor poderia apagar-se para certos gêneros literários. Em muitas atividades econômicas e sociais, essa distinção sofrerá provavelmente o mesmo destino em proveito de uma rede anônima de produção. Meios informacionais e bases de recursos serão as condições da possibilidade dos percursos de leitura e da geração de textos. Será que as equipes encarregadas de construí-los e arranjá-los assumirão a responsabilidade dessa escrita de segundo grau, a escrita dos possíveis?
Escutar, compor, tocar
Estamos mergulhados num novo mundo musical. Os computadores emitem sons de timbres improváveis, paradoxos auditivos e glissandos inesperados. Cristalinos, aflautados, sibilantes, estridentes, penetrantes, estalantes, fanhosos ou ressoantes, de todos os sons ululados pelos sintetizadores, muitos eram inauditos há algumas décadas. Nenhum instrumento conhecido naquela época permitia produzi-los.
Por muito tempo incubada por enormes máquinas nos locais discretos da pesquisa, a música informatizada escapou dos laboratórios Bell, dos estúdios de Colônia e do IRCAM. Sintetizadores digitais programáveis, muito aperfeiçoados, já são fabricados em série. Através de uma interface padrão, um simples microcomputador pode comandar a produção de uma seqüência sonora complexa em qualquer sintetizador. Músicas de diversão, rock, populares ou clássicas, quase todas elas recorrem às técnicas do processamento digital do som, tanto no palco como no estúdio de gravação.
Poucos são os músicos que utilizam a composição automática pura sem modificação ou manipulações posteriores à execução do programa. Alguns, no entanto, como Pierre Barbaud, limitam, por questões de rigor, o papel do compositor à elaboração de um algoritmo que sozinho escreverá a partitura.
Existem atualmente linguagens de composição automática muito semelhantes às linguagens evoluídas da informática clássica. Os programas redigidos nessas linguagens são digitados no computador através do teclado alfanumérico e comandam diretamente a produção do som por um sintetizador. Softwares ajudam o compositor a escrever seu programa, apresentando-lhe após cada etapa diversas possibilidades entre as quais poderá escolher (comando por menus). Outros softwares fornecem ao compositor uma ajuda para a orquestração.
As diferentes versões musicais da linguagem Logo permitem a crianças construírem uma seqüência sonora a partir de um encaixamento de procedimentos progressivamente definidos. Um jogo sobre a repetição e variação, a música se presta particularmente bem a um processamento algorítmico, ao menos no estágio de um primeiro aprendizado. Outros sistemas, como o UPIC do CÉMAMU (dirigido por Iannis Xenakis) permitem compor a partir de uma digitação gráfica.
Computadores pessoais equipados com um microfone exibem na tela a partitura da música que está sendo improvisada à sua frente com um instrumento tradicional ou um sintetizador conectado. No fim da seqüência musical, o computador imprime a pedido a partitura. Pode-se ao mesmo tempo escutar um trecho e ver apartitura na tela. Graças às possibìlidades de voltar atrás e de modificações proporcionadas pelas técnicas digitais, o arranjo torna-se tarefa fácil. Sistemas aperfeiçoados vão ainda mais longe, exibindo não só notas na pauta como também uma representação tridimensional da forma de onda do som tocado. Uma nova interação está esboçando-se entre o gesto, a escuta, a anátise formal da estrutura musical e a do objeto sonoro. Dialética acelerada do algoritmo e da intuição.
Os sintetizadores digitais melhoram continuamente seus desempenhos, aproximando-se assim do ideal: a máquina que produz todos os sons, cornucópia acústica. Programável por definição, o sintetizador digital permite ao autor dispensar o intérprete. O compositor pode definir com precisão a onda sonora a ser produzida pela vibração dos alto-falantes. Isso 0 obriga a passar por um processo intelectual de explicitação e a formalizar a parte de sensibilidade e intuição tradicionalmente reservada à interpretação. Se o compositor se contentar com dar partituras normais ao computador, este as tocará antes mal do que bem, de maneira por demais mecânica. O ouvido, a mão e o cérebro de um violinista, por exemplo, fazem "cálculos" inconscientes ultra-rápidos, difíceis de transcrever. Enquanto se indica um sentimento a um virtuose, transmite-se um algoritmo ao computador. O problema é ainda mais agudo no caso de uma orquestra onde quarenta cérebros e outros tantos corpos e sensibilidades trabalham juntos. Para contornar a dificuldade encontrada pelo compositor para programar sozinho um processo de tamanha complexidade, caminha-se para a elaboração de sistemas expertos intérpretes.
A energia vital do músico fazia vibrar a alma de seu instrumento. Com o sintetizador digital, a execução torna-se um exercício de transmissão de símbolos. O corpo do músico não está mais diretamente envolvido na produção do som. Construir uma frase de baterìa nas teclas de um sintetizador antes de programar sua repetição com variações só requer, por exemplo, um gasto mínimo de energia. Muitas aparelhagens outras que não o teclado permitem comandar a síntese ou o processamento digital do som. Instrumentos que utilizam a boca, cordas dedilháveis, joysticks devolvem sua importância à respiração, à dinâmica gestual. Continua tratando-se, entretanto, de órgãos de comando de um processo digital: o som de um saxofone pode ser traduzido no som de um piano e reciprocamente.
As técnicas da informática musical permitem em princípio gravar, sintetizar e modificar a gosto todos os elementos que concorrem para a produção do som. Laboratórios como o ACROE de Grenoble estão trabalhando sobre a simulação de todos os objetos vibrantes acústicos. Assim, o gesto de um músico que manuseia um dispositivo digital que simula um instrumento pode ser inteiramente gravado, transformado, sintetizado. Na via da síntese digital da própria onda sonora é que entrou a maior parte da pesquisa. Controlam-se as variações de todos seus parâmetros físicos: freqüência, amplitude, harmonias, timbre, etc. Pode-se, por fim, simular o espaço no qual o som se propaga: um metro cúbico, uma sala de concerto, um hangar de avião, uma catedral. O som não é mais o resultado definitivo de um jogo instrumental num espaço dado; ao contrário, apresenta-se como uma matéria-prima a ser trabalhada em profundidade em suas mais finas estruturas. Não basta variar o volume ou a altura, penetra-se até a forma precisa do invólucro
do sons, metamorfoseiam-se timbres e harmonias. Cada parâmetro pode ser modificado independentemente dos outros. O controle do som começa na metade do século nos estúdios de gravação e difusão radiofônicas graças ao gravador magnético. A informática musical incrementa de maneira formidável esse domínio e coloca-o ao alcance de todos os músicos e, em breve, do público. Muitos sintetizadores oferecem um leque de sons e efeitos pré-programados. Só resta ao músico mover alguns cursores ou deslocar o joystick para obter o que deseja. O jogo identificase cada vez mais com o comando de um processo de tratamento de sinal.
No total, a extrema formalização dos procedimentos e princípios de composição que os pioneiros da composição automática tiveram que operar provocou um choque teórico. Foi necessário repensar a criação, a composição e o discurso musical.
No século XIX, o compositor escrevia com tinta notas em pautas. O executante decifrava essa escrita convencional e a interpretava com uma ação de seu corpo sobre um instrumento de madeira, cobre ou corda. Hoje, todas as etapas da produção musical, desde a concepção inicial até a vibração final da atmosfera, podem reduzir-se à intervenção codificada sobre o modelo digital de um sinal físico.
Como o som pode ser inteiramente programado, não há mais lugar, a rigor, para a interpretação. Na verdade, vê-se desenhar-se uma rede de produção musical onde os conceptores de máquinas, os programadores de efeitos acústicos, os melodistas, os engenheiros do som, os arranjadores, os instrumentistas no teclado, os ouvintes intervêm, cada uma à sua maneira, sobre o som final, sem que se saiba muito bem quem interpreta o quê. Estão multiplicando-se os possíveis acessos à geração de seqüências sonoras complexas. Nenhum sistema de síntese ou processamento garante, porém, que afinal de contas se obtenha música.
Ver, criar imagens
Como outrora a lente astronômica, o microscópio e os raios X, a imagem digital está ampliando o campo do visível. A imagem de síntese oferece à nossa percepção modelos abstratos de fenômenos físicos, de reações químicas, de processos biológicos ou de hipóteses cosmológicas. Um processamento gráfico apropriado nos dá a ver imensas massas de dados cifrados, tabelas estatísticas ilegíveis por causa do número de suas dimensões e da quantidade de informações envolvidas. Com uma simples inspeção visual, arquitetos, urbanistas, designers industriais ou conceptores de novas moléculas químicas examinam rapidamente as conseqüências de suas decisões graças à simulação tridimensional. As técnicas de processamento de imagem permitem construir representações claras de dados registrados por receptores de rádio, infravermelhos ou de radar. Filtradas, polidas, codificadas, coloridas, as formas indiscerníveis transmitidas pelos satélites, os microscópios ou as câmaras de bolha saem à luz do dia.
Uma quantidade de estruturas, fenômenos e processos complexos que podiam ser concebidos apenas intelectualmente, lidos com um lento trabalho de decodificação, pacientemente cartografados ou desenhados à mão, hoje surgem direta mente na evidência do mundo sensível por virtude da imagem digital. Uma nova interação entre os sentidos e a inteligência abstrata está em via de construção.
Daqui a algumas décadas, todos os terminais informáticos serão acompanhados por interfaces gráficas e materiais especialmente concebidos para o processamento e a síntese da imagem. A maioria das atividades cognitivas assistidas por computador beneficiar-se-ão de um acompanhamento e ilustração icônica, eventualmente holográfica. Devemos pensar também a mutação cultural ligada à informatização na perspectiva dessa nova ideografia. As técnicas da imagem induzem uma nova arte de ver. Os produtos da infografia dão-se com efeito pelo que são: representações entre todas as representações possíveis. Resultam de escolhas que visam a evidenciar através da cor ou do relevo tal ou tal aspecto do modelo estudado ou da coleção de dados inicial. Sabe-se desde jâ que a imagem divide, filtra, elimina, encena e afinal só tem valor para uma área limitada de pertinência. A imagem digital é operacional e codificada. É construída para um uso, assim como um mapa geográfico. Ora, decifrar uma legenda, ler um mapa são exercícios complexos que supõem um aprendizado, uma cultura. É preciso suspeitar da falsa imediação da imagem.
Contrariamente ao mapa geográfico clássico, a imagem digital pede a exploração ativa do espectador, não só pela interpretação como ainda por intervenções efetivas. Percurso dentro de cidades reais ou imaginárias simuladas, rotação e translação de objetos representados em três dimensões, modificação das cores, da luz, ampliações, etc.: outras tantas facetas da interação entre o espectador-operador e o sistema infográfico. A imagem digital é essencialmente dinâmica. Permite jogar com as escalas tanto cronológicas como espaciais: contração de durações geológicas em alguns segundos, tranqüilo desenrolar na tela de fulgurantes nanosegundos. O espectador pode controlar todos os parâmetros do filme digital que a tela e os órgãos de controle do sistema lhe dão para manusear.
Teoricamente, a interatividade pode ser levada tão longe quanto se quiser. Imaginemos uma base de dados geográficos conectada a um sistema de processamento de imagens extremamente sofisticado. Partindo de nosso terminal, poderíamos sobrevoar a Terra desde todas as alturas, a todas as velocidades e seguindo a totalidade dos percursos possíveis. Poderíamos aterrissar em qualquer ponto do globo. Durante a descida, uma multidão de novos detalhes nos apareceriam à medida de nossa descida nas escalas de representação. Poderíamos, à vontade, fazer variar os climas e as estações, ou simular em velocidade maior o movimento das placas tectônicas. Mas essa não passaria de uma interatividade clâssica: deslocamento dentro de um representação ou ao longo de suas escalas espaciais e temporais. Também podemos viajar de um tipo de representação para outro, passar de um mapa geológico para outra da vegetação, de uma representação geo-estratégica para uma representação geo-econômica, de um destaque colorido dos relevos terrestres e submarinos para o detalhe da dìstribuição demográfica sobre a Terra. E para todas essas representações, em todas as escalas imagináveis, poderíamos também passar da projeção cilíndrica de Mercator, que conserva os ângulos, para as projeções cônicas de Lambert, adaptadas às latitudes médias, das diversas projeções azimutais, úteis para as telecomunicações, para os mapas elípticos que conservam as superfícies.
O horizonte da imagem digital é essa janela utópica desde a qual todo 0 universo seria visível em todas as escalas e em todos os modos de representação imagináveis. Um universo onde o espectador-operador poderia intervir com um simples comando oral para desencadear secas, duplicar a população terrestre, fazer explodir supernovas ou remontar o mais longe possível através de roteiros e simulações no futuro e no passado.
Temos observado a eliminação da distinção entre espectador e criador de imagens. Resta, no entanto, uma atividade de concepção e programação a montante da interação. No campo da imagem digital, o autor concebe uma linguagem básica: volumes geométricos, funções, operações elementares. A construção de uma imagem de síntese passa por algumas etapas obrigatórias. Definição formal dos objetos a partir de seu esqueleto linear ou de uma combinatória de figuras geométricas, a seguir o enchimento dos volumes, alisamento das superfícies, escolha das texturas, das refletâncias, das cores, disposição da luz, etc. O metadesenhista constitui uma hierarquia encaixada de programas que gerem enormes quantidades de dados digitais. Cada ponto da tela, ou píxel, define-se por duas variáveis de posição e três variáveis de luz colorida. Todas as operações gráficas são traduzidas na máquina e, portanto, para o programador, em operações aritméticas e lógicas. A concepção da imagem e do movimento alcança, pois, um grau extremo de formalização, o que não impede que uma imagem surpreenda até quem a programou. O domínio efetivo e simbólico da nova ideografia exigirá provavelmente um mínimo de familiaridade com a abordagem algorítmica. E certo que é possível manusear as ferramentas eletrônicas e os tabletes gráficos desconhecendo-se por completo os princípios da programação, mas nesse caso utiliza-se uma série de efeitos, de potencialidades, de lógicas de construção de imagem, predefinidos pelos conceptores do sistema. O usuário das ferramentas gráficas não é então senão um dos elos de uma cadeia de criação que se iniciou antes dele. As capacidades de armazenamento, combinação e reaproveitamento de estruturas visuais oferecidas pelos sistemas a esse usuário multiplicam sua velocidade de execução e fazem remontar a industrialização da imagem desde a difusão até a produção. A própria difusão, porém, se vê ainda mais racionalizada: condensada numa matriz digital, a imagem se projeta indiferentemente numa tela, numa camiseta ou num cartaz.Conceber
Nos laboratórios de química de síntese, nos departamentos de engenharia de arquitetura, de urbanismo ou de construção mecânica, onde são concebidos os novos circuitos eletrônicos de alta velocidade, utilizam-se sistemas de concepção assistida por computador (CAD).
Graças aos softwares de CAD, o conceptor vê-se livre de tediosos cálculos intermediários, da coleta sistemática de dados espalhados, bem como de outras tarefas que pertencem mais à execução do que à concepção. Mas, à medida da incorporação pelos soflwares de segmentos suplementares do processo de concepção, a divisão entre execução e concepção perde sua pertinência.
Tomemos o caso da concepção de uma peça mecânica. Antes de qualquer construção efetiva, o sistema de CAD permite observar sua rotação em torno de qualquer eixo, obter uma visão transversal, próxima ou recuada, deslocá-la na tela e conferir num só olhar se ela se ajusta bem às outras peças. A simulação de suas condições de uso autoriza uma análise técnica extremamente rápida. Assim fica facilitada a revisão dos possíveis.
Certos sistemas permitem o acesso à totalidade das soluções aceitáveis dentro das limitações iniciais de um determinado problema. Com a simples mudança de um parâmetro numérico, ou com uma caneta óptica, o técnico obtém imediatamente o desenho de uma nova peça, sendo esse desenho automaticamente registrado num disco ou fita magnética, pronto para sua difusão. Cada vez que uma nova peça deve ser fabricada, o programa de ajuda para a concepção permite localizar a lista das peças com características semelhantes já construídas. Só resta modificar levemente os resultados disponíveis na memória.
Determinar as soluções realizáveis entre a inúmera quantidade dos possíveis. Para isso, utilizar a experiência adquirida. Considerar sob todos seus aspectos a eventualidade retida. Examinar sua concordância com o conjunto em que deve tomar seu lugar. Prever seu comportamento nas situações comuns e extraordinárias que a esperam. Se necessário, modificar a concepção, testar novamente, e assim em diante até ficar satisfeito. Se dermos o nome "conceber" a essa seqüência ordenada de operações, então uma máquina tem a capacidade para "conceber".
Na verdade, nenhuma programação conhecida é capaz de desenhar sozinha um circuito impresso ou um motor de avião a partir da especificação das técnicas de base. Os avanços da informática tendem, no entanto, para esse desempenho. Conceber está doravante fugindo para o horizonte do cálculo.
Para que os esforços dos programadores possam aplicar-se, era necessário previamente que a inteligência humana fosse considerada como um processo mecanizável. Uma vez isso posto, construíram-se mecanismos reais que progrediram lentamente dentro dessa atividade cognitiva até simulá-la quase que totalmente.
Onde a execução era o manuseio ordenado das coisas, a concepção torna-se o manuseio regulado dos símbolos. Modelizadas, formalizadas, programadas, otimizadas, tornadas objetos de ciência, a concepção e a decisão perderam seu caráter inefável e transcendente. A concepção não se diferencia mais da execução senão pelo baixo nível da energia física necessária à sua implementação. Tanto uma como a outra são mecanizáveis, cada uma na sua escala energética. O que é decidir, conceber, resolver um problema? Basicamente, percorrer um itinerário numa complicada rede lógica, explorar de maneira seletiva, graças a regras heurísticas, um número finito de vias na grande árvore dos possíveis, até a descoberta de uma saída aceitável. Tal é ao menos a hipótese operatória do programador. Quer seja verdade ou não, a nova definição social das atividades intelectuais está propagando-se com a construção e o uso das máquinas que a encarnam. Pois um autômato lógico pode manusear símbolos ou, provido com o fio de Ariadne dos heurísticos, desenhar um percurso nos labirintos combinatórios. O cálculo resolvé problemas, decide, concebe, junta-se à inteligência.
A multiplicação das ferramentas de ajuda para a concepção e a decisão visa a, sem consegui-lo totalmente, substituir o homem pela máquina. Anuncia também, porém, um acesso cada vez mais aberto à concepção sofisticada, uma espécie de democratização da decisão técnica complexa. Mediante o hábito da formalização dos problemas e o domínio de certas linguagens codificadas, dispõe-se de parceiros intelectuais incansáveis, dotados com sólidas competências técnicas.
O que se está instaurando é, na verdade, um continuum de concepção, que vai desde o criador do sistema CAD até o usuário final. O primeiro elo da rede não mais desenha um objeto, mas sim um sistema de objetos possíveis, uma máquina para explorar as virtualidades. A competência propriamente humana subiu mais um degrau lógico. O novo conceptor traduz em algoritmos o savoir faire do anterior, sua competência própria é a formalização. A aventura dos sistemas expertos ilustra muito bem o movimento contemporâneo de explicitação, de conformação lógica e modular das operações intelectuais.A engenharia do conhecimento
Como o nome indica, os sistemas expertos são programas capazes, em princípio, de substituir um especialista humano. Os conhecimentos de um ou mais especialistas confirmados estão contidos numa base de regras sob a forma de numerosas pequenas regras simples e de metarregras (modo de utilizar as regras em função das situações). Os dados do problema a ser tratado são especificados na base de fatos. O motor de inferência aplica aos fatos um grande número de regras e os encadeia até a descoberta de uma resposta correta. O sistema experto pode interagir com um operador suficientemente qualificado, pedindo-lhe informações suplementares. Procurase construir sistemas expertos capazes de explicar as etapas de seus raciocínios e de justificar com clareza suas conclusões. Esta última característica pode transformar os sistemas expertos em ferramentas de ensino. O campo potencial de aplicação é extremamente amplo: diagnóstico médico, perfuração petrolífera, descoberta da estrutura de moléculas químicas (espectrografia de massa), concepção de microprocessadores, análise de bolsas, interpretação de textos, estratégias navais ou comerciais, etc. Em 1987, já existem muito mais sistemas expertos em estudo ou em via de elaboração do que programas efetivamente operacionais e comercializados. Não obstante, as pesquisas na matéria conhecem uma extraordinária progressão e são criadas muitas empresas voltadas para o mercado da engenharia do conhecimento.
O engenheiro cognitivo é o especialista da transferência de perícia do homem para a máquina. Identifica, designa, explicita e reformula os conhecimentos e modos de raciocínio do profissional experiente. Fá-lo dar à luz um savoir faire amiúde implícito, até inconsciente. Em função do campo considerado e das operações intelectuais implicadas (diagnóstico, solução de problemas ou planejamento de tarefas complexas), decide sobre o tipo de sintaxe apropriada à articulação do saber do especialista. A seguir, escolhe uma linguagem de representação dos conhecimentos antes de transcrever nessa mesma linguagem as regras e metarregras obtidas na fase de explicitação. O sistema experto torna-se operacional somente após um longo trabalho de teste, correção e avaliação.
Durante seu desenvolvimento, a inteligência artificial deparou-se com o problema da representação dos conhecimentos. Não basta codificar e armazenar informações. É preciso ainda encontrar uma representação e uma organização lógica que se preste ao raciocínio automático. Antes da informática nascer, a arte da formalização floresceu mais especialmente na lógica e na matemática. A conversão em algoritmos dos cálculos numéricos antecedeu a formalização de outras atividades intelectuais. Hoje, não se informatizam apenas cálculos científicos ou problemas de gestão, onde todos os casos são previstos de antemão. Doravante, as competências das máquinas se estendem aos campos confusos, incertos, parcialmente desconhecidos, nos quais se move a nossa vida quotidiana. A arte da formalização, confrontada com dificuldades incomuns, assume uma nova importância e concerne a uma quantidade crescente de atividades humanas.
A formalização repercute sobre os savoir faire que organiza e desdobra. Durante a concepção de um sistema experto, o especialista é levado a refletir sobre sua própria prática, a extrair seus atalhos heurísticos. Passa do savoir faire ao saber dizer o que faz. Esse ganho de racionalidade permite-lhe com freqüência fazer progredir sua disciplina ao detectar incoerências ou ao generalizar procedimentos. Por outro lado, sabe transmitir melhor seu saber para outros expertos humanos ou aprendizes. A novidade reside menos na formalização da teoria do que na da prática, tradicionalmente o reino da experiência pessoal intransmissível.
Quase todas vantagens da formalização equivalem a otimizar a comunicação. Comunicação entre humanos, e dos homens com a máquina, através da explicitação. Comunicação entre as representações e a realidade, pois quanto mais coerente e formalizado um modelo, melhor a possibilidade de testá-lo e modificálo. Comunicação entre disciplinas e campos de aplicação diferentes, pois a formalização permite evidenciar analogias estruturais.
A nova definição social do conhecimento incorpora o que por muito tempo não passara de uma exigência filosófica ou científica. A competência não se limita mais ao savoir faire, a aptidão para a formalização e explicitação das práticas está tornando-se essencial. Acompanhado por um crescente imperativo de comunicação, o novo ambiente informatizado estende a uma esfera indeterminada de atividades sociais a divisão em módulos, a articulação lógica e a justificação racional das condutas inteligentes.
Ensinar, aprender
A utilização multiforme dos computadores para o ensino está se propagando na escola, na casa, na formação profissional e contínua. Essa utilização carrega em si uma redefinição da função docente e de novos modos de acesso aos conhecimentos.
Nem todas as crianças serão formadas em informática enquanto disciplina autônoma; mas pode-se fazer a hipótese razoável de que daqui a algumas décadas o manuseio de linguagens processuais ou declarativas fará parte do ensino básico. Uma linguagem processual descreve a realização de uma tarefa em termos de série de operações ordenada e hierarquicamente encaixada. Uma linguagem declarativa exprime, sob a forma de inferências lógicas elementares, as regras utilizadas por um raciocínio complexo. Há vários anos e em muitos países do mundo já é utilizada a manipulação de uma linguagem informática, Logo, para fins puramente pedagógicos. Ali está em jogo o desenvolvimento de uma forma de espírito, de um modo de pensamento especificamente ligado à informática.
Antes mesmo de influir sobre o aluno, o uso dos computadores obriga os professores a repensar o ensino de sua disciplina. A elaboração de um programa de ensino assistido por computador (EAC) ou um softrvare didático necessita uma clarificação e explicitação das intenções do conceptor, uma adaptação exata aos objetivos dos meios empregados, uma distinção dos gêneros de discurso (transmissão de informações positivas, comentários, conselhos, etc.). Muitas "linguagensautores" propõem aos docentes uma ajuda para a elaboração de softwares didáticos.
O computador é também um instrumento de precisão para a pesquisa pedagógica. Por seu intermédio, todos os alunos podem ser submetidos exatamente ao mesmo programa de ensino e podem-se registrar em detalhe suas progressões, seus atrasos e erros. Os autores de soflwares didáticos aperfeiçoam seus produtos ao progredir no conhecimento dos mecanismos de aprendizado.
Quando se trata, para o aluno, de apropriar-se um conjunto predefinido de conhecimentos fatuais, ou de dominar um código simples (como as leis do trânsito), a máquina pode pura e simplesmente substituir o professor humano. Nos outros casos, a máquina relaxa a relação dual entre o professor e o aluno. A transmissão de informações e a notação dos exercícios deixam de ser a principal função do professor. Guiando a procura do aluno por informações nos programas, nos bancos de dados e nos livros, ajudando-o a formular seus problemas, torna-se um animador de aprendizado.
Distinguem-se vários tipos de softwares didáticos, a maior parte deles baseados no princípio do ensino programado: a informação é dividida em módulos elementares e o aluno progride ao seu ritmo, em pequenas etapas. Diversos caminhos são possíveis em função dos conhecimentos anteriores do aluno e de sua velocidade de aprendizado. Antes do ingresso numa nova fase, exercícios permitem ao usuário do programa verificar se os conhecimentos necessários ao prosseguimento do curso foram adquiridos.
Graças aos programas de simulação, o estudante interage com modelos de processos complexos cujo controle na escala real é impossível. Assim é que experiências de física nuclear, evolução de modelos demográficos, hipóteses macroeconômicas são exploradas sem perigo nem custo excessivo. Não se pode falar realmente em aprendizado por experiência direta, pois trata-se de simulações. Seria mais correto dizer que o estudante adquire um conhecimento prático do modo com que se comportam os modelos numéricos dos fenômenos quando certos parâmetros são modificados. Ao familiarizar-se não só com as reações do processo modelizado, mas também com o princípio da simulação, o estudante realiza o aprendizado de uma das principais formas da experiência num ambiente informatizado.
A consulta de bancos de dados para obter referências bibliográficas ou, diretamente, as informações procuradas fará parte, em breve, do mecanismo normal da aquisição dos conhecimentos. Os programas de ensino que requeiram um grande poder de cálculo só serão acessíveis através de redes telemáticas. As comunicações via fibra óptica autorizarão a consulta de bancos de imagens de alta definição. Percorrer as arborescências das linguagens documentais, explorar as ramificações das redes, outros tantos savoir faire em breve indissociáveis dos aprendizados complexos.
A informática para o ensino pode ser considerada como sendo mais do que uma simples ferramenta de transmissão e gestão da informação. Para uma corrente pedagógica do ensino superior e do segundo grau, a prática da programação estruturada é uma excelente iniciação ao pensamento algorítmico e modelizante. Para outros, favorece-se o desenvolvimento intelectual das crianças pequenas mergulhando-as num ambiente onde poderão manipular procedimentos sistemáticos.
Como é que o hábito da programação estruturada exerce um efeito benéfico sobre a formação intelectual? A situação do ensino assistido por computador "clássico" fica invertida. Não é a máquina que dá ao aluno um problema a ser resolvido, mas sim o aluno que faz o computador calcular. A esse fim, o programador aprendiz deve definir com precisão o que está procurando, transformar o problema intuitivo confuso em um enunciado claro e distinto. É o estágio da análise funcional. A seguir, é preciso decompor o problema anteriormente enunciado em subproblemas corretamente hierarquizados e organizados, antes de formalizar os algoritmos de resolução de cada subproblema. E a etapa da análise orgânica. A adaptação dos algoritmos à máquina e sua tradução numa linguagem de programação constituem a última fase, a da programação propriamente dita.
Basicamente, os dois primeiros estágios, a análise funcional e a análise orgânica, é que são considerados como formadores no plano intelectual. O estudante familiariza-se com um método geral de resolução de problemas. Faz o aprendizado do rigor na abordagem de tarefas complexas. Acostuma-se a explicitar com clareza seus modelos da realidade, a formular de maneira distinta as questões difíceis, antes de se lançar apressadamente em cálculos ou soluções ao acaso.
Seymour Papert, um dos inventores da linguagem Logo, propõe que as máquinas não sejam utilizadas apenas para transmitir os antigos conteúdos do ensino, mas sim que se tire o máximo proveito das novas possibilidades pedagógicas oferecidas pela informática. Corretamente concebidos, o diálogo e ojogo com os computadores podem permitir à criança experimentar modelos de procedimentos sistemáticos. Esses modelos, com efeito, é que devem ser transmitidos ao computador para obter dele o que se procura. Em seu esforço para apropriar-se do que a rodeia, a criança é levada a manusear não só objetos ou conceitos, como também procedimentos. Um procedimento, ou algoritmo, é a formalização de um processo acabado ou de um "fazer", uma seqüência ordenada de operações, tanto físicas como intelectuais. Para dominar o micromundo gráfico, acústico ou literário ao qual a máquina dá acesso, as crianças das "turmas Logo" são constantemente obrigadas a corrigir e retificar os procedimentos que comunicaram à máquina. Ora, esses procedimentos explicitam a maneira com que a própria criança se representa a ação a executar ou o método para implementá-la. Assim é que sua própria maneira de proceder, o caminho de seu pensamento, torna-se o objeto da reflexão da criança. Como os procedimentos são imediatamente testados ante seus olhos, desenvolve-se em sua mente uma eficaz interação entre a intuição e a formalização. Esta não é mais sentida como uma obrigação abstrata (daí o horror pela matemática), adquire seu sentido como meio de controle sobre o computador.
Seymour Papert, assim como outros pesquisadores em inteligência artificial como Marvin Minsky e Herbert Simon, consideram a informática como uma ciência da descrição, isto é, uma ciência da explicitação, da análise e da decomposição dos comportamentos inteligéntes em pequenos módulos. A aquisição dessa ciência está em jogo no progressivo domínio dos procedimentos e da prática da programação estruturada. O aprendizado do método cartesiano, de exigência filosófica e científica que foi outrora torna-se repentinamente, ao contato dos computadores, uma necessidade prática e sensível para qualquer um. Clareza e distinção dos conceitos, divisão das dificuldades, condução por ordem dos pensamentos, enumerações gerais, tudo está presente. As enumerações gerais de Descartes foram substituídas pela combinatória, a informática atua mais sobre os procedimentos do que sobre objetos e conceitos; é portanto um método de segundo grau. Para o restante, trata-se de um triunfo do espírito cartesiano.
Pode-se imaginar que, daqui a alguns anos, técnicas pedagógicas sejam fundadas na formalização, pelo aluno, das regras elementares de seus raciocínios n~zma determinada área. Isso equivalerá a fazê-lo construir a base de regras de um sistema experto capaz de reproduzir suas performances.
Já no começo do século XXI, as crianças aprenderão a ler e escrever com máquinas editoras de texto. Saberão servir-se dos computadores como ferramentas para produzir sons e imagens. Gerirão seus recursos audiovisuais com o computador, pilotarão robôs, consultarão familiarmente os bancos de dados. Saberão de cor dialogar com os sistemas expertos. A simulação será para elas um modo banal de acesso à realidade. Terão o hábito do controle interativo de micromundos e modelos complexos. Terão acesso a um saber recortado em pequenos módulos funcionais. O conhecimento em si, porém, disponível nos bancos de dados e nas bibliotecas, terá menos importância do que a capacidade para gerir redes de comunicação e encontrar a informação com facilidade. Sua mente terá sido formada para a explicitação, a formalização, o manuseio de algoritmos e regras de inferência. Os procedimentos intelectuais, os caminhos do pensamento serão para elas uma matéria-prima perfectível a ser continuamente transformada.
Todas as evoluções que se estão esboçando na área educacional estão em congruência com as modificações das atividades cognitivas observadas em outras áreas. O uso dos computadores no ensino prepara mesmo para uma nova cultura informatizada.As novas linguagens
Ninguém previa, cinqüenta anos atrás, que o intercâmbio entre os homens e as máquinas iria tornar-se tão sofisticado e que envolveria tantas pessoas em sua vida profissional ou particular. O principal problema do diálogo com os computadores reside na diferença entre linguagens formais, que regem o comportamento das máquinas, e as linguagens naturais utilizadas e compreendidas pelo homem em sua vida quotidiana. Ao falar, ao escrever, os homens se movem no reino dos significados. Suas línguas naturais possuem uma gramática, um léxico relativamente estável, regras ortográficas. Não obstante, entendemos as frases incorretas, as que contêm neologismos ou erros de ortografia, ajudando-nos com o contexto e antecipando o sentido das novas proposições a partir do que antecede. A comunicação na língua natural tolera uma enorme margem de ambigüidade. Na maioria das vezes, não temos consciência disso, pois a história anterior da comunicação, o contexto atual, uma multidão de conhecimentos implícitos reduzem as ambigüidades. Poder-se-ia dizer até que a troca lingüística diminui as incertezas da situação, antes do que o contrário, tanto a linguagem toma um sentido só a partir das raízes físicas, sociais, históricas e de um horizonte de significados partilhados.
As linguagens formais, ao contrário, apresentam-se como regras estritas de transformação de cadeias de símbolos. Movem-se num universo puramente sintático. Uma linguagem formal é um mecanismo envolvendo letras e seqüências de caracteres em vez de polias e engrenagens. Uma instrução destinada a um computador traduzir-se-á por um certo encadeamento de estados físicos na máquina eletrônica. Um programa informático está muito mais próximo, por natureza, de um virabrequim, do cilindro cheio de pontas de uma caixa musical ou de um cartão perfurado, do que de um texto em língua natural. As mensagens que enviamos para um sistema de processamento automático da informação devem estar em perfeita conformidade com um código preestabelecido. Tudo deve ser formalmente explicitado sem ambigüidade, pois a máquina não interpreta nossas ordens em função de um contexto geral ou de uma situação.
A breve história do diálogo entre o homem e o computador pode ser analisada como um esforço para superar o abismo entre linguagens formais e línguas naturais. Através de uma série cada vez mais longa de tradutores intermediários, através da invenção de novos órgãos de saída e entrada, visuais, táteis e acústicos, através de sutis efeitos cênicos, flexibiliza-se a rigidez mecânica da comunicação formal.
As linguagens avançadas de programação, tais como Fortran, Cobol ou Basic, representam a primeira etapa marcante dessa flexibilização; fornecem ferramentas de codificação dos algoritmos relativamente próximos do inglês comum, da matemática ou lógica usuais. As linguagens descritivas, ou não-processuais, melhoram ainda mais a comunicação homem-máquina ao permitir definir o resultado procurado sem precisar completamente a série ordenada de operações que levam a esse resultado: As linguagens descritivas, como o Prolog, estão totalmente desprovidas de instruções e contentam-se em definir as relações a partir das quais o computador deve deduzir conclusões lógicas. Outros sistemas de anotação, como Smalltalk, são conhecidos sob o nome de "linguagem de tipo objeto". Propõem uma representação conceitual do computador composta por objetos separadamente referidos e que podem enviar-se mensagens. Pesquisas estão sendo realizadas para elaborar linguagens de programação inteiramente gráficas e visuais. Longe de evoluir em direção a uma linguagem universal, como alguns acreditaram nos anos sessenta, a informática está multiplicando seus dialetos de programação, cada um deles adaptado a uma aplicação específica (cálculo numérico, gestão, inteligência artificial, comando de processos, etc.). Com efeito, quanto mais geral uma linguagem for (o que comporta importantes vantagens técnicas e econômicas), maiores suas limitações em cada uso particular.
Ao diversificarem-se, as linguagens de programação aproximam a percepção e o manuseio dos processamentos informáticos da apreensão imediata dos usuários. No plano ideal, a cada modificação de uma imagem visível na tela corresponde uma mudança de estado da máquina. Assim, o usuário pode conduzir o processamento a partir de sua percepção direta sem passar pelo intermédio de códigos abstratos ou de conhecimentos sobre o funcionamento interno da máquina. A programação não fica mais reduzida à escrita passo a passo de algoritmos, à estruturação dos dados e à otimização dos recursos da máquina. O ponto central doravante é a tomada em consideração do diálogo com o usuário. Isso implica uma dimensão de sensibilidade, de direção cênica quase que teatral que aproxima a programação das belas artes.
Com a concepção de linguagens de programação, estamos lidando com uma espécie de metaescrita ou de metaconcepção que pode ser comparada à arquitetura. O conceptor deve fornecer um produto funcional, sólido no plano técnico, mas também de uso agradável, até bonito. Ele não propõe uma obra para ser contemplada, mas sim um espaço aberto para a habitação, a apropriação ou até o desvio de um usuário. Em vez de organizar o espaço dos corpos em movimento, o conceptor de linguagens estrutura o espaço das funções cognitivas e das interações sensóriointelectuais. Assim como os engenheiros da Renascença, os informáticos de amanhã deverão estar abertos a todas as dimensões culturais. Essa arte da programação está dando apenas seus primeiros passos. Viverá provavelmente um grande desenvolvimento daqui a algumas décadas.
O aspecto mais espetacular da melhoria do diálogo com os computadores envolve o comando oral e a sintetização da palavra. Por ora, os pesquisadores não antevêem programas capazes de entender a totalidade da língua falada, nem a possibilidade de uma máquina de escrever operada por comandos orais. Em contrapartida, já estão em atividade certos programas que reconhecem palavras ou seqüências isoláveis em um léxico de várias centenas de unidades. É permitido imaginar máquinas com acesso a um limitado subconjunto da linguagem natural falada no marco de uma comunicação de contexto fixo. Por fim, podem-se imaginar também linguagens híbridas, que combinem aspectos naturais e formais, de sintaxe rígida e léxico restrito, porém com uma flexibilidade muito superior aos códigos informáticos habituais. Esses novos vetores de comunicação associariam elementos orais e uma estilização ideográfica.
Assim como os dialetos naturais, o "falar máquina" aprender-se-á cada vez mais com uma exploração gradual antes do que pela prévia assimilação de um código. Os computadores capazes de processar a voz humana em tempo real e sintetizar a palavra humana irão multiplicar-se. Os campos de aplicação diversificar-se-ão com os avanços da inteligência artificial e a integração cultural da informática. Aos diferentes jargões, dialetos profissionais e técnicos, acrescentar-seão uma multidão de crioulos ou pidgins intermediários entre línguas naturais e linguagens formais. O homem de cultura informática caracterizar-se-á por sua aptidão metalingüística a manusear esses idiomas semimecânicos, a pular de um pidgin informático para outro, a viajar de micromundo em micromundo.Livros e bancos de dados
Aprender, ensinar, informar-se, conceber, ler, escrever, comunicar através do som, da imagem ou da linguagem: a maioria das atividades cognitivas são potencialmente redefinidas pela nova tecnologia intelectual que é a informática. Sujeitos e objetos, autores e destinatários perdem sua identidade individual em proveito de redes contínuas de produção de informações. Os antigos produtos acabados como 0 texto, a imagem ou o som tornam-se matéria-prima a ser processada. Com a concepção de linguagens, sistemas e softwares, aparece uma espécie de metaescrita ordenadora e reguladora, que determina os possíveis do universo ao qual poderão ter acesso os atores competentes. A aptidão à formalização dos savoir faire, a habilidade no manuseio dos códigos, algoritmos e ideografias artificiais tornam-se componentes essenciais da cultura.
Reconhecer essas transformações nem por isso significa prever a substituição universal das antigas tecnologias pelas novas. O sintetizador não acabará com o violino. O editor gráfico e o monitor não substituirão por toda a parte e sempre a tela e o pincel. A não ser no imaginário social, os livros não serão suplantados pelos computadores e bancos de dados. No passado, o surgimento da escrita não dispensou os homens da fala. Mais perto de nós no tempo, os meios de gravação e difusão do som e da imagem que se têm multiplicado desde o século XIX não eliminaram nenhum dos antigos modos de expressão. Em contrapartida, consideradas numa nova configuração de mídias, implicadas num sistema de comunicação diferente, as antigas tecnologias intelectuais mudam de significado.
O que a escrita se torna sob o regime da colocação em rede e da difusão imediata de todas as informações? Que estatuto conferir-lhe diante do grande sistema de circulação acelerada dos dados eficazes? Tal como as palavras são pronunciadas para serem ouvidas e os livros escritos para serem lidos, os dados dos bancos são construídos para serem processados. O que distingue esse modo de armazenamento dos outros é que precisamente não é um simples registro. Um banco de dados é um sistema de gestão, processamento e transmissão da informação. Limitações de um processamento automático impõem uma codificação uniforme, uma normalização da maior severidade. Na ausência de normalização, as classificações tornar-se-iam incoerentes e as estatísticas perderiam seu sentido. Os conceptores de bancos de dados, pois, devem escolher com cuidado as dimensões pertinentes que definirão os dados e organizarão sua classificação em árvores ou redes. O ponto de vista adotado, a informação escolhida e a estruturação da linguagem documental que dá acesso ao banco poderão variar enormemente de acordo com os usos e as necessidades dos usuários. A informação eletrônica custa caro, e, sendo seu uso basicamente profissional ou científico, ela deve ser rentável. A vocação de um banco de dados não é a de conter todos os conhecimentos reais sobre um tema, mas sim a totalidade do saber aproveitável por um cliente solvável. Trata-se menos de difundir luzes junto a um público indeterminado do que pôr uma informação operacional à disposição dos especialistas. Assim, cerca de dois terços das informações atualmente armazenadas no mundo dizem respeito a informações econômicas, comerciais ou financeiras de caráter estratégico. Os responsáveis econômicos ou políticos tomam suas decisões com base nesses dados. As informações científicas e técnicas ocupam apenas o segundo lugar.
A informação on line deve ser exaustiva, estar atualizada. Os dados obsoletos são sistematicamente eliminados. Nesse sentido, a maioria dos bancos de dados são menos memórias do que espelhos, tão fiéis quanto possível, do estado atual de uma especialidade científica ou de um mercado.
Em suma, a informação on line é ultra-especializada. É recortada em pequenos módulos normalizados. O acesso se faz de maneira extremamente seletiva, pois toma-se conhecimento apenas da informação procurada. Antes de tudo, seu uso é estratégico: obter a informação mais confiável, o mais rápido possível, para tomar a melhor decisão.
Na época da informação caudalosa, das mídias tonitruantes e da imagem animada a domicílio, não se sabe mais que objeto mágico o livro era. Durante séculos, a verdade, a última significação na ordem filosófica ou religiosa transmitiram-se pela leitura. Ler o Livro (a Bíblia) era entrar em contato com o absoluto. Deus tornara-se versículo ou surata. Na China, Índia, no Ocidente, as obras clássicas da Antigüidade eram sempre comentadas, reinterpretadas, ressuscitadas, dando lugar a novos livros, fontes de uma conversa sem fim. O Livro estava à origem da pesquisa, perfilava-se no horizonte da procura. A página escrita era ordenadora, soltava o sentido, entregava a verdade. A dimensão informativa estava presente, porém subordinada à exigência da significação.
Após três ou quatro séculos de transição, a informação funcional passou a ocupar o primeiro plano. O desenvolvimento dos bancos de dados exprime essa inversão. A grande rede eletrônica não suprime a velha escrita; ao contrário, ela remete aos milhões de textos, artigos, publicações, revistas especializadas, jornais que se acumulam a cada dia nas bibliotecas e centros de documentação. Já mais houve tantas páginas impressas no planeta. Os bancos de dados fornecem ao pesquisador o seu fio de Ariadne para penetrar no labirinto da biblioteca mundial.
Programas para classificar os livros e editar os textos, livros sobre a informática como este: as duas tecnologias alimentam-se uma a outra. Mas a lógica da informação operacional prevalece socialmente sobre a da interpretação. O fluxo dos dados modulares submerge as sínteses organizadas. Acima da escrita das palavras e frases reina a meta-escrita dos sistemas de informação, a que organiza as operações mecânicas, regula as comunicações, classifica os textos e as imagens, simula todos os aspectos da realidade.
O índice de valor e autoridade atribuído outrora aos livros afeta hoje o computador e a documentação automática. Ao nascer da história, a escrita tirara da palavra efêmera o crédito e o poder do desempenho. Os algoritmos e a informação operacional estão instaurando uma nova ordem por cima da palavra e da escrita, aquém ou além da linguagem. Doravante, a linguagem é regida pelo cálculo.
Sistema de controle
A linguagem, a medida, o número e o cálculo são tão velhos quanto a humanidade. Não há sociedade que não saiba falar, contar, avaliar uma quantidade. Essas ferramentas servem para descrever, mapear o mundo ambiente, mas não lhe pertencem. Elas têm uma realidade menor do que a desse mundo. A palavra cão não morde. Se eu calcular que para ter nove maçãs na minha cesta eu preciso de mais cinco, continuo tendo apenas quatro. Haveria portanto uma esfera ideal dos números e das palavras que decalcaria no imaterial o mundo real sem poder atuar sobre o mesmo.
Não obstante, graças às representações digitais e verbais de seu ambiente, os homens ordenam o universo, estruturam o espaço e o tempo, lembram, prevêem e, por fim, agem de uma maneira infinitamente mais eficaz do que os animais. Por outro lado, linguagem e medida são operadores sociais fundamentais, pois organizam a comunicação e as trocas. Finalmente, longe de ser uma mera duplicação fantasmática do real, a linguagem institui o mundo humano como tal.
A aritmética e a palavra fazem parte de uma classe de objetos que se apresentam ao mesmo tempo como simples mapas de um território preexistente, ferramentas para a exploração ou transformação da paisagem, organizadores sociais e fontes instituintes.
A escrita pertence a esse conjunto de operadores paradoxais. Do lado da cópia, contenta-se em notar a expressão verbal. Apresenta-se também, entretanto, como uma instância a partir da qual é julgada a palavra efêmera e repetitiva. A escrita torna-se a referência do discurso. Além do mais, é indissociável do surgimento do Estado e do nascimento de uma casta administrativa. Ao permitir o surgimento de um tempo linear e cumulativo, instaura por fim a segunda fase da aventura humana, a história.
Um relógio não faz nada senão nos informar a hora. Mas também organiza nossa agenda. Sincroniza os trabalhos coletivos, os encontros, os deslocamentos.
O relógio é um operador social fundamental. Nos dá a hora, no sentido forte, ao nos subtrair de um mundo arcaico ou tradicional, no qual cada coisa e cada atividade tinham seu ritmo próprio, para levar-nos para outro universo onde os tempos são comparáveis, uniformes e mensuráveis.
Assim como uma língua, uma aritmética, uma escrita, uma medida do tempo, a informática pertence ao grupo dos sistemas de controle de caráter ideal ou informacional. Oferece modelos descritivos de uma realidade já presente. Propõe meios para prever e agir na natureza ou na cidade. Mais ainda, transforma o trabalho, a comunicação, o conhecimento, isto é, a própria cultura. Ao redefinir a maioria das atividades cognitivas, modifica nossa apreensão do mundo, instituindo uma nova era antropológica, assim como a escrita instaurara a história.
Assim como uma língua, embora de maneira diferente, a informática recorta as coisas de acordo com lógicas próprias dela, organiza a memória social, simula o futuro. Como as velhas aritméticas, mas de uma maneira infinitamente mais eficaz, os computadores calculam, não só sobre números, como também sobre todos os tipos de códigos e símbolos. Raciocinam, demonstram, testam, gerenciam, otimizam, regulam, classificam e traduzem no modo imperturbável e certo do cálculo. Assim como os relógios, os sistemas de processamento automático da informação estruturam o tempo do trabalho, da comunicação e das trocas. A própria essência do computador, sua finalidade, é uma operação sobre o tempo. A calculadora eletrônica é a primeira máquina que trabalha a uma velocidade próxima da luz. Essa fantástica aceleração dos cálculos permite o acesso a resultados anteriormente fora de alcance, autoriza o comando de processos em tempo real e transforma nosso campo de experiência.
A informática concentra e potencializa todos os sistemas ideais de controle que a antecederam: línguas, numerações, ideografias, alfabetos, relógios, máquinas lógicas. A inflexível e minuciosa trama dos algoritmos reúne o feixe dos mais antigos poderes e multiplica-os à velocidade da luz. A informática é a última, até a data, dessas grandes invenções que têm ritmado o desenvolvimento da espécie humana, reorganizando sua cultura e abrindo-lhe uma nova temporalidade.A era pós-histórica
Uma cultura identifica-se menos com um estoque de crenças, mitos e representações do que com a contínua reiteração de um tipo particular de processamento e transmissão. Assim é que uma cultura pode ao mesmo tempo tomar emprestados os conteúdos mais diversos e seguir sendo a mesma. Ao fim de um certo número de voltas na comunicação social, seu modo de interpretação e difusão assimila os corpos estranhos. Da indefinida recursão das operações simbólicas próprias de uma determinada sociedade emerge uma forma cultural estável.
Distinguimos, com razão, as civilizações históricas das culturas pré-históricas com o surgimento de uma tecnologia intelectual, de uma nova maneira de processar e comunicar a informação: a escrita. O papel preeminente do modo de registro e transmissão encontra-se também à escala de certos objetos culturais fundamentais, tais como os mitos. Numa sociedade sem escrita, um mito não é um relato, mas antes um relato de relato de relato e assim em diante desde o tempo suposto das origens. A escuta, a memória humana e a repetição acabaram por moldar o estilo específico das produções das culturais orais. Dramatização, reencenações, enumerações, recitação poética e todos os artifícios das artes da memória podem ser lidos ainda nos textos antigos dajunção das tradições escritas e faladas. Mais do que um estilo ainda, a oralidade determina uma temporalidade, é verdade que mutante, que os interlocutores, porém, vivenciam imóvel.
A literatura propriamente dita é segregada também pela contínua reiteração de certas operações simbólicas. Deixando uma marca durável, o autor eleva-se acima da recitação anônima. Num sentido, um livro é a recombinação, original ou não, de todos os livros lidos por seu autor. Cada texto é portanto uma leitura de leitura de leitura de leitura e assim sem parar. Um texto é uma decifração, uma interpretação, uma resposta. A redação sempre se destaca sobre um fundo de escritos prévios. A escrita instaura os jogos da referência e da diferença explícita, rompendo assim com o ritmo imemorial da literatura oral. Autoriza a invenção hermenêutica, tão importante nos planos filosóficos e religiosos.
Ao transpor a cultura oral, a escrita inscreve-a em um tempo novo, em outro ciclo da memória social. Da mesma maneira, a informática recodifica os antigos conteúdos culturais para fazê-los entrar em novos circuitos de processamento e comunicação. Sistema geral de moldagem, cálculo e transmissão da inforrriação, a ciência dos computadores erige-se como matriz cultural. O savoir faire dos peritos e dos coletivos de trabalho são formalizados em algoritmos ou inferências lógicas elementares. A simulação digital aparece como uma nova ferramenta de experiência e pensamento. As antigas classificações, denominações e vocabulários são substituídos por códigos racionais adaptados ao processamento automático. A comunicação simbólica e as representações artificiais substituem-se lentamente às velhas interações diretas entre a sensação bruta, a cinestesia e a habilidade motora.
A informática é o ponto de articulação de uma cultura, pois opera em segundo grau. É portadora de saber inédito, aplicando-se principalmente, porém, ao registro formalizado e à gestão racional dos conhecimentos. Assegura menos a reprodução de procedimentos canônicos do que calcula, recursivamente, a otimização dos procedimentos. Transforma de maneira perpétua os métodos antes do que os símbolos ou as coisas. Por fim, atua diretamente sobre os principais motores da evolução social, isto é, a administração dos homens e dos bens e a pesquisa científica.
Por quatro séculos a generalização da economia de mercado, o crescimento econômico e demográfico, a multiplicação dos meios de transporte e comunicação, o explosivo acoplamento da ciência com a técnica e a indústria têm acelerado fantasticamente o curso da história humana. A informática inscreve e mantém essa aceleração no plano propriamente cultural do processamento da informação.
As línguas dividem, e muito, os homens, os alfabetos ou ideografias os distinguem menos, os sistemas de processamento automático da informação os reúnem de maneira absoluta. Desde sua concepção, um banco de dados já é internacional. Os chineses fabricam computadores compatíveis com o padrão do mercado. A Índia está equipando suas escolas com microcomputadores. Os mesmos softwares especializados rodam em todas as máquinas do planeta. Modos organizacionais e administrativos, formas de raciocínio, lógicas, taxionomias, códigos, ideografias, procedimentos, savoir faire, estética até ou sensibilidade, a informática leva uma carga cultural universal. Arquivos são gerenciados da mesma maneira em Bangkok do que em Ottawa. Programa-se em Xangai como em Oslo, e nas mesmas linguagens. Por toda a parte expressa-se a obsessão pelo ganho de tempo e a velocidade de cálculo.
A civilização da informação operacional transmuda em algoritmos e converte em dados exploráveis os conteúdos das culturas anteriores. Assim, subordinaos a seus próprios fins. A captura num banco é ao mesmo tempo uma eliminação e uma retomada em um circuito novo. Breve, porém, a cultura informática trabalhará mais a partir dos dados coletados por seus sensores e com seus próprios produtos do que com o estoque histórico. Desde o espaço intergaláctico, desde a Terra e os oceanos via os satélites, desde as raias da matéria estudadas nos aceleradores de partículas, desde o coração indecifrado da vida acossado pelos laboratórios de biologia molecular, desde tudo quanto pode ser mensurado no social registrado pelos institutos de pesquisa e estatística, um fluxo ininterrupto de códigos numéricos alimentará os bancos, os modelos, animará as simulações, ajudará nas escolhas econômicas e militares. Quais as formas culturais nascerão da reiterada otimização dos procedimentos automáticos, dos programas de sintetização de programas, das simulações em cadeias, dos cálculos de cálculos em códigos feitos rajadas, das hierarquias indefinidamente encaixadas de traduções e linguagens?
Se medirmos simultaneamente o surgimento de uma nova temporalidade, o salto para dentro da acumulação e processamento das informações, a reformulação dos saberes e savoir faire, a mudança dos hábitos, da sensibilidade e da inteligência, e, por fim, a universalidade envolvida pela cultura informática, então não parece absurdo fazer a comparação com a passagem da pré-história. Estamos entrando na era pós-histórica. Uma forma cultural inédita está emergindo da indefinida recursão de um tipo novo de comunicação e processamento simbólico.
A nova constelação do cálculo norteia a aventura humana. Limitamo-nos, até o momento, a um quadro de inteligibilidade que põe em cena a influência de uma técnica sobre a cultura. A informática, no entanto, não surge, feito um meteorito, de um alhures absoluto para vir bater no social. Ao contrário, é um produto da sociedade que em retorno ela estrutura, ao menos no caso europeu e norteamericano. A mutação antropológica envolve o húmus de civilização que leva a informática tanto quanto os efeitos desta última sobre os hábitos mentais e a relação com o mundo.
Ao estudo do movimento cultural de grande magnitude que carrega a informática é que esse livro é dedicado. Um universo está se espalhando, do qual os computadores não são senão a culminação instrumental.
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