o cruzamento de mídias

Na mais recente reportagem da coluna "Outra Freqüência" (02.07.2003), publicada semanalmente no jornal Folha de São Paulo, a jornalista Laura Mattos trata da pretensão da CBN em retransmitir (pelo rádio) o "Jornal Nacional" da TV Globo ao vivo. "A intenção é aproveitar, principalmente, a audiência de quem está retornando do trabalho para casa na hora em que o telejornal entra no ar, por volta das 20h15".

O problema que se apresenta é: "um produto gerado para a televisão pode funcionar no rádio, sem as imagens?". A suposição é que, nesse "cruzamento de mídias", apenas o áudio (no caso de retransmissão de um programa de TV, centrado nas imagens) seja insuficiente para a compreensão do programa.

A polêmica revela o tipo de uso que se faz, costumeiramente, das imagens - seja imagens em movimento, seja fotografia... Isto é, um uso referencial, ilustrativo, em que as imagens servem como aparato do discurso falado ou escrito. Nessa perspectiva a imagem funciona como elemento secundário, como adereço, sendo dispensável. Talvez contribua com o discurso auxiliando na fixação da mensagem, bem como tornando o programa mais dinâmico, como se diz, através da utilização de outro modo de expressão.

No caso do uso de imagens do tipo não-referenciais, isto é, imagens que
compõem com o discurso um paralelismo, uma bifurcação de sentido, o
cruzamento de mídias não determina um problema, e sim, um fortificante para o meio de expressão. A recepção tende a convergir com a emissão, pois a atividade do receptor consistirá em produzir o sentido no entre-face das linguagens, dos modos de expressão que se combinam (imagem + áudio) e se constituem num algo mais.

Nesse sentido, e a respeito de seu trabalho Antropologia da Face Gloriosa, o fotógrafo Arthur Omar acredita realizar uma outra obra, por ex., quando põe "títulos-legendas" em suas fotos, não havendo remissão preestabelecida pelo autor entre uma e outra que facilite a compreensão de um suposta obra total (título + foto). A passagem, ou o cruzamento de modos de expressão que realiza o receptor, é que produzirá o sentido - com o emissor e a mensagem emitida compondo o ambiente compreensivo no qual o receptor mergulha.

"Um bom título tem que valer por si mesmo, e não se referir a nenhuma outra imagem, a não ser as imagens verbais que ele mesmo carrega dentro de si. O título já é uma obra. Quando junto um título a uma fotografia, estou combinando uma obra com outra obra, quase como se pendurasse um quadro ao lado do outro". (O Zen e a Arte Gloriosa da Fotografia, Cosac & Naify, p. 31).

Desse modo, o cruzamento de mídias põe em questão os tipos de linguagem utilizadas nas diversas mídias, e nos faz pensar que se considerarmos certa autonomia dos modos de expressão per si, por exemplo, que o rádio pode conter "imagens verbais" a serem redescobertas pelos ouvintes em sua atividade de produção de sentido; perceberemos não haverem maiores problemas (salvo limitações de ordem técnica e comercial - e não de compreensão) que impeçam a fabricação de "esquizomídias" (mídia fragmentária composta por
elementos visuais, sonoros, tácteis, olfativos, gustativos, ...), ainda que
venham caotizar o habitual modo de produzir e difundir mensagens, e forçar a invenção de subjetividades...

Fábio Giorgio Azevedo