Faculdade de Educação - Departamento de Educação II

atualizado em 21/10/2002


EDC 321 – TEE: Polêmicas Contemporâneas

[ Semestre: 2002.2 | 04 créditos | 60 horas | 6ª feira: 8 às 12 h.| módulo: 80 alunos]

[ Professora Mary de Andrade Arapiraca E.mail: ciro@svn.com.br ]

[ Professor convidado: Nelson Pretto E.email: pretto@faced.ufba.br ]

Linha de Pesquisa CURRÍCULO E TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO.

Integrada ao grupo de Pesquisa Educação, Comunicação e Tecnologias [CNPq]


Tema: HISTÓRIA DO CARNAVAL DA BAHIA

 

por Isabel Cristina Sales Macêdo e Suely Filgueiras Rotondano da Silva

 

 

O tema “Carnaval: vai brincar ou levar a sério?” será discutido na próxima
Sexta ­ feira, 14 de fevereiro, momento em que o grupo responsável pela
realização fomentará as reflexões em torno do carnaval, enquanto
manifestação popular que suscita uma diversidade de leituras.
Uma dessas leituras é feita por Goli Guerreiro em seu artigo “História do 
Carnaval da Bahia”: O mito da Democracia Racial, publicado em Bahia Na &
Dados, Salvador, CEI,V.3 n.4, ps 100 ­ 105, mar 94, no qual procura em uma
análise crítico ­ reflexiva abordar a temática do carnaval.
Guerreiro procura mostrar que o carnaval serve como uma amostra nítida da
desigualdade social e do conflito étnico marcante na sociedade brasileira,
pois desde as celebrações do Entrudo, evidencia-se a intenção dos brancos em
coibir as manifestações populares carregadas de influências
afro-descendentes, fortemente cultivada pelos negros escravos que aqui
conviveram. Os batuques durante os festejos do Entrudo, exemplificam essas
influências como forma de resgate da identidade e manutenção da dignidade,
que traduzem  resistência aos impostos valores culturais europeus.
A coação às manifestações dos negros durante o Entrudo oscilavam entre
repúdio a religiosidade dos negros ­ o candomblé ­ e o suposto vandalismo
atribuído pelos brancos às referidas manifestações. Assim, observa-se, com o
fim do Entrudo, o surgimento de outras formas de festejos como os Préstitos,
nos quais vê-se também reproduzido o conflito racial que permanece desde a
origem do carnaval até os nossos dias. Dividindo-se em agrupamentos
distintos, negros e brancos buscam incessantemente formas singulares de
festejar o carnaval.
Então, vemos brancos reunindo-se em bailes carnavalescos realizados nos
clubes de elite e os negros persistindo com seus batuques em todos os cantos
da cidade, já visualizados desde o início da república nos Préstitos,
chegando com muita originalidade aos afoxés no final da década de 40, com o
surgimento dos filhos de Ghandi, que reproduziam os rituais do candomblé e o
toque ijexá, que muito influenciou a musicalidade baiana, além de
desmistificar a violência atribuída a participação dos negros nos festejos
carnavalescos da época.
Mesmo com o aparecimentos de novos afoxés, não foi possível conservar
fielmente as tradições africanas, tão cultuadas pelos filhos de Ghandi.
Todavia, é através dos afoxés que vemos surgir os blocos afros, os quais,
alimentando um discurso étnico político, abrem espaço para que a comunidade
negra se imponha e ganhe notoriedade no panorama nacional.
É importante perceber como um novo paradigma carnavalesco será focalizado,
entre a década de 40 e 50, através do surgimento do novo rítimo eletrizado
do trio que atua como um campo magnético, atraindo de forma vibrante negros
e brancos que se misturam em meio a folia das ruas, composta por escolas de
samba, cordões, blocos e afoxés. Se no primeiro momento o trio elétrico
possibilita um entrosamento entre negros e brancos, posteriormente, o embate
volta a configurar-se com a privatização dos trios elétricos, caracterizando
os blocos de brancos puxados por trios famosos. Como não podia deixar de 
acontecer, os negros, por sua vez, também criaram seus espaços exibindo-se
nos “blocos de índios” que expressavam mais uma tentativa no sentido de
combater as desigualdades e a discriminação, refletida nos moldes do combate
entre índios e brancos na América do Norte. No entanto, verifica-se a
intensificação da discriminação racial sob a alegação de manifestações
violentas por parte dos integrantes dos blocos de índios.
O conflito racial que esteve camuflado durante o processo sócio-histórico
nacional, colocando os negros em situação de inconsciência em relação a sua
inferior condição social, portanto inibindo-os e ao mesmo tempo colocando-os
num estado de acomodação, diante da ideologia dominante, começa a
refigurar-se a partir dos anos 70 com a criação do bloco afro ilê aiyê, que
contribui para desencadear um movimento político de entidades negras que
têm, agora, objetivos bem marcados no sentido de difundirem sua identidade e
valorização da auto-estima, galgando uma participação significativa na vida
social e política, refletindo-se não só na sociedade baiana como em toda a
sociedade brasileira.
Atraindo um grande contingente humano através de sua performance e
musicalidade, os blocos afros contribuem para a transformação das
manifestações carnavalescas, como também abre novos horizontes para a música
baiana, que viverá seus dias de apogeu com a Axé Music, que funde rítimos
africanos, desenvolvidos na Bahia, com o frevo pernambucano, destacando
vários músicos a exemplo Dodô e Osmar, Moraes Moreira, Luís Caldas e
recentemente Margarete Menezes e Daniela Mercuri. Vale salientar que antes
da cantora Daniela Mercuri ter sido eleita “Rainha da Axé Music”, ganhando
projeção nacional embalada pelo contagiante rítimo afro e, de certo modo,
ofuscando o brilho de grandes estrelas de destacada originalidade como
Margarete Menezes, esteve sempre representando a folia dos brancos nos
“blocos de Barão”.
Diante das reflexões acima, fica evidente que o carnaval extrapola os
limites de mera manifestação folclórica, constituindo-se numa significativa
matriz, a partir da qual se pode analisar criticamente muitos aspectos da
cultura baiana e nacional, pois configura-se como um grande palco demarcado
por divergências e convergências que se mesclam, não permitindo ao
espectador desavisado, a verdadeira reflexão do seu significado, a ponto de
não perceber que a dicotomia que polariza negros e brancos, respectivamente
pobres e ricos, reafirma-se a medida que os interesses econômicos e de
classe preponderam sobre o espírito de euforia e liberação peculiar ao
carnaval.

Quer saber mais sobre o carnaval? Investigue...

Referências Bibliográficas:

Da MATTA, Roberto, Carnavais malandros e heróis. Rio de Janeiro: Zahar
editores,
1983.
FRY, Piter et alli, Negros e brancos no carnaval da Vella República. IN:
Escravidão
Invenção da liberdade. São Paulo, Brasiliense, 1988.
GOIS, Fred. O país do carnaval elétrico. Salvador: ed Currupio, 1982.
MORALES, A ntonio. Carnaval Ijexá. Salvador, ed Currupio, 1981.
SANTOS, Jocélio Telles dos. Divertimentos estrondosos: Candomblé e /ou
Batuques e a perseguição policial na Bahia oitocentista. Salvador, UFBA ­
FFCH,
1993.

 

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